sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CAP. 240—— 2 TEMPORADA - PONTO FRACO: TUDO PODE MUDAR DO DIA PRA NOITE

 

Sophia Narrando

Eu sempre imaginei como seria aquele momento, durante nove meses sonhei com os rostinhos, com as pequenas mãos, com o cheiro e com a sensação de finalmente ter meus filhos nos braços. Mas descobri que nenhuma imaginação, por mais perfeita que fosse, chegaria perto da realidade.

Três pequenos seres estavam diante de mim, três pedacinhos de amor que, de alguma forma, haviam saído de dentro de mim e agora dormiam tranquilamente, como se não tivessem acabado de transformar nossas vidas para sempre.

— Eles são tão lindos... — murmurei, sentindo meus olhos marejarem novamente.

— Puxaram ao pai, graças a Deus — Micael respondeu, aproximando um dos berços.

— Engraçadinho — revirei os olhos — Nove meses carregando essas crianças, passando mal, sentindo dores, deixando de dormir, e você ainda quer levar os créditos?

— Meu amor, não quero levar todos os créditos, podemos dividir. Eu fico com a beleza e você com esse temperamento maravilhoso que, certamente, nossos filhos herdaram.

— Micael, eu acabei de passar por uma cirurgia, não me faça levantar dessa cama para te bater.

— Está vendo? — ele olhou para Lua — É disso que estou falando.

— Olha, eu não quero me meter no casamento de vocês, mas, se essas crianças puxarem a Sophia, eu vou morar em outro país — Lua respondeu, arrancando risadas de todos.

— Que absurdo! — respondi, fingindo indignação — Você deveria estar do meu lado.

— Amiga, eu te amo, mas três "Sophias" dentro da mesma casa é uma ameaça à humanidade.

— Lua, pode ir embora.

— Não posso, sou tia dessas três maravilhas, então infelizmente, vamos ter que conviver.

            Minha mãe sorria enquanto observava aquela confusão, era estranho perceber como tudo havia mudado em tão pouco tempo. Antes, éramos apenas nós, cercados de planos, sonhos e promessas, agora, três pequenas vidas dependiam inteiramente da gente. Estendi os braços para pegar uma das meninas, mas Micael imediatamente se aproximou.

— Calma, princesa, você acabou de operar.

— Micael, eu tive filhos, não virei uma peça de porcelana.

— Pra mim você sempre foi uma peça de porcelana.

— Uma peça de porcelana que está prestes a ser quebrada de tanto estresse — Lua murmurou.

— Eu ouvi, sua idiota! — respondi, rindo.

Micael colocou nossa pequena menina cuidadosamente em meus braços, ela se mexeu um pouquinho, fez uma careta engraçada e voltou a dormir. Eu não consegui segurar a emoção, finalmente entendia o significado de amar alguém mais do que a própria vida. Depois de tantas dificuldades, e apesar do medo que ainda existia em mim, eu me sentia segura e em paz.

— Oi, meu amor... — sussurrei, acariciando seu rostinho — A mamãe estava esperando tanto por você...

Micael se sentou ao meu lado, passando o braço cuidadosamente pelos meus ombros.

— Ela é perfeita, não é?

— É... — respondi, olhando para ele — São perfeitos.

Ele sorriu, mas seus olhos estavam diferentes. Havia uma tristeza escondida naquele sorriso que eu conhecia tão bem.

— Você está chorando? — perguntei.

— Estou feliz, princesa.

— Eu sei... Mas parece que tem alguma coisa errada.

— A única coisa errada aqui é que agora teremos três pessoas para atrapalhar nossos momentos românticos.

— Quatro — Lua interrompeu — Porque eu também pretendo passar bastante tempo aqui.

— Meu Deus, eu estou começando a me arrepender de ter filhos — Micael brincou.

— Tarde demais, papai — respondi, dando um beijo em seu rosto.

Ele encostou a testa na minha e fechou os olhos por alguns segundos.

— Eu amo vocês — sussurrou.

— Nós também te amamos.

E, por um instante, tive a impressão de que ele estava se despedindo.

 

                                                    ***

Narrador

Algumas horas depois, Sophia finalmente havia adormecido. O cansaço do parto, somado aos medicamentos e às emoções daquele dia, fez com que ela não conseguisse permanecer acordada por muito tempo. Os bebês haviam sido levados novamente para os cuidados da equipe médica, e Micael permanecia próximo à janela, observando o movimento do lado de fora.

            Lua estava sentada no sofá quando percebeu que ele não parava de olhar para o celular:

— Você vai continuar fingindo até quando?

— Fingindo o quê?

— Que está tudo bem.

— Lua, não começa.

— Não começa você, Micael. Eu te conheço há tempo suficiente para saber quando está mentindo.

— Estou cansado, só isso.

— Cansado? — ela se levantou — Sua mulher acabou de dar à luz três filhos lindos, você deveria estar sorrindo igual um idiota, como sempre faz quando está perto dela. Mas desde que ela saiu daquela sala de parto você parece que viu um fantasma.

— É muita coisa acontecendo – Micael respondeu desviando o olhar.

— É sobre o Miguel?

            O silêncio que se formou entre os dois foi suficiente para que Lua percebesse que havia acertado.

— Meu Deus... — ela levou a mão à boca — O que aquele desgraçado fez agora?

— Fala baixo — Micael respondeu imediatamente, olhando na direção da cama.

— Então é verdade?

— Lua, por favor...

— Não me pede calma, Micael. Sophia acordou desesperada falando que viu aquele homem dentro da sala de parto e você disse que era coisa da cabeça dela, mas não era, não é?

— Eu estou resolvendo - Micael passou as mãos pelo rosto.

— Resolvendo o quê? Como ele conseguiu entrar aqui?

— Existem coisas que você não pode saber, se contente com o que eu te contei até aqui.

— Você está me ouvindo? — Lua segurou o braço dele — Aquela mulher é minha melhor amiga. Aqueles bebês são meus sobrinhos e você não me explicou nada até agora, fica apenas com esses enigmas.

— Não! — ele respondeu mais alto do que pretendia, fazendo os dois olharem imediatamente para Sophia. Ela continuava dormindo — Você não entende Lua, quanto menos souber, melhor. O que eu te contei até agora é suficiente.

— Isso não faz o menor sentido.

— Faz pra mim.

— Você está com medo.

Ele permaneceu em silêncio.

— Micael... — ela suavizou a voz — Eu nunca vi você assim.

— Eu também nunca tive tanto a perder.

— O que você fez? - Lua sentiu o peito apertar.

Micael virou o rosto em direção à esposa adormecida. Sophia parecia tranquila, completamente alheia à conversa que acontecia a poucos metros dali.

— Eu fiz o que qualquer homem faria para proteger a família.

— E qual foi o preço?

Ele a encarou por alguns segundos.

— Você precisa me prometer uma coisa – Micael dizia –Lembra a promessa de nunca sair de perto dela?

-Sim, como iria esquecer?

-Ela continua de pé... eu vou estar aqui o tempo necessário, mas eu não sei o que vai acontecer depois, e você precisa seguir tudo.

— Eu sempre vou estar ao lado dela, você sabe disso –Lua declarou

— E dos meus filhos também – disse suspirando

— Vocês são minha família Mica...sempre serão, independente da loucura que esteja passando nessa sua cabecinha – ela disse rindo

— Você é especial pra gente Lua, você sabe...

-Claro que sei, aliás, quem mais te ajudaria com essas loucuras?

-Eu fico mais tranquilo agora – deu um sorriso fraco – Eu vou precisar fazer uma ligação, fica com a Sophia que daqui a pouco eu volto.

-Não demore, porque se ela acordar e não te ver, eu não quero nem saber o que vai acontecer contigo.

-Eu vou voltar antes disso – disse rindo e saiu do quarto.

                Lua permaneceu imóvel por alguns segundos, tentando entender aquela conversa. Conhecia o amigo, sabia que ele tinha uma mania irritante de querer resolver todos os problemas sozinho, mas daquela vez havia algo diferente. E, pela primeira vez, ela teve medo de que Micael estivesse se envolvendo em alguma coisa da qual não conseguiria sair.


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