Sophia Narrando
Eu
sempre imaginei como seria aquele momento, durante nove meses sonhei com os
rostinhos, com as pequenas mãos, com o cheiro e com a sensação de finalmente
ter meus filhos nos braços. Mas descobri que nenhuma imaginação, por mais
perfeita que fosse, chegaria perto da realidade.
Três
pequenos seres estavam diante de mim, três pedacinhos de amor que, de alguma
forma, haviam saído de dentro de mim e agora dormiam tranquilamente, como se
não tivessem acabado de transformar nossas vidas para sempre.
— Eles são tão
lindos... — murmurei, sentindo meus olhos marejarem novamente.
— Puxaram ao pai,
graças a Deus — Micael respondeu, aproximando um dos berços.
— Engraçadinho —
revirei os olhos — Nove meses carregando essas crianças, passando mal, sentindo
dores, deixando de dormir, e você ainda quer levar os créditos?
— Meu amor, não quero
levar todos os créditos, podemos dividir. Eu fico com a beleza e você com esse
temperamento maravilhoso que, certamente, nossos filhos herdaram.
— Micael, eu acabei
de passar por uma cirurgia, não me faça levantar dessa cama para te bater.
— Está vendo? — ele
olhou para Lua — É disso que estou falando.
— Olha, eu não quero
me meter no casamento de vocês, mas, se essas crianças puxarem a Sophia, eu vou
morar em outro país — Lua respondeu, arrancando risadas de todos.
— Que absurdo! —
respondi, fingindo indignação — Você deveria estar do meu lado.
— Amiga, eu te amo,
mas três "Sophias" dentro da mesma casa é uma ameaça à humanidade.
— Lua, pode ir
embora.
— Não posso, sou tia
dessas três maravilhas, então infelizmente, vamos ter que conviver.
Minha mãe sorria enquanto observava
aquela confusão, era estranho perceber como tudo havia mudado em tão pouco
tempo. Antes, éramos apenas nós, cercados de planos, sonhos e promessas, agora,
três pequenas vidas dependiam inteiramente da gente. Estendi os braços para pegar uma das
meninas, mas Micael imediatamente se aproximou.
— Calma, princesa,
você acabou de operar.
— Micael, eu tive
filhos, não virei uma peça de porcelana.
— Pra mim você sempre
foi uma peça de porcelana.
— Uma peça de
porcelana que está prestes a ser quebrada de tanto estresse — Lua murmurou.
— Eu ouvi, sua
idiota! — respondi, rindo.
Micael
colocou nossa pequena menina cuidadosamente em meus braços, ela se mexeu um
pouquinho, fez uma careta engraçada e voltou a dormir. Eu não consegui segurar
a emoção, finalmente entendia o significado de amar alguém mais do que a
própria vida. Depois de tantas dificuldades, e apesar do medo que ainda existia
em mim, eu me sentia segura e em paz.
— Oi, meu amor... —
sussurrei, acariciando seu rostinho — A mamãe estava esperando tanto por
você...
Micael se sentou ao
meu lado, passando o braço cuidadosamente pelos meus ombros.
— Ela é perfeita, não
é?
— É... — respondi,
olhando para ele — São perfeitos.
Ele sorriu, mas seus
olhos estavam diferentes. Havia uma tristeza escondida naquele sorriso que eu
conhecia tão bem.
— Você está chorando?
— perguntei.
— Estou feliz,
princesa.
— Eu sei... Mas
parece que tem alguma coisa errada.
— A única coisa
errada aqui é que agora teremos três pessoas para atrapalhar nossos momentos
românticos.
— Quatro — Lua
interrompeu — Porque eu também pretendo passar bastante tempo aqui.
— Meu Deus, eu estou
começando a me arrepender de ter filhos — Micael brincou.
— Tarde demais, papai
— respondi, dando um beijo em seu rosto.
Ele encostou a testa
na minha e fechou os olhos por alguns segundos.
— Eu amo vocês —
sussurrou.
— Nós também te
amamos.
E, por um instante,
tive a impressão de que ele estava se despedindo.
***
Narrador
Algumas
horas depois, Sophia finalmente havia adormecido. O cansaço do parto, somado
aos medicamentos e às emoções daquele dia, fez com que ela não conseguisse
permanecer acordada por muito tempo. Os bebês haviam sido levados novamente
para os cuidados da equipe médica, e Micael permanecia próximo à janela,
observando o movimento do lado de fora.
Lua estava sentada no sofá quando
percebeu que ele não parava de olhar para o celular:
— Você vai continuar
fingindo até quando?
— Fingindo o quê?
— Que está tudo bem.
— Lua, não começa.
— Não começa você,
Micael. Eu te conheço há tempo suficiente para saber quando está mentindo.
— Estou cansado, só
isso.
— Cansado? — ela se
levantou — Sua mulher acabou de dar à luz três filhos lindos, você deveria
estar sorrindo igual um idiota, como sempre faz quando está perto dela. Mas
desde que ela saiu daquela sala de parto você parece que viu um fantasma.
— É muita coisa
acontecendo – Micael respondeu desviando o olhar.
— É sobre o Miguel?
O silêncio que se formou entre os
dois foi suficiente para que Lua percebesse que havia acertado.
— Meu Deus... — ela
levou a mão à boca — O que aquele desgraçado fez agora?
— Fala baixo — Micael
respondeu imediatamente, olhando na direção da cama.
— Então é verdade?
— Lua, por favor...
— Não me pede calma,
Micael. Sophia acordou desesperada falando que viu aquele homem dentro da sala
de parto e você disse que era coisa da cabeça dela, mas não era, não é?
— Eu estou resolvendo
- Micael passou as mãos pelo rosto.
— Resolvendo o quê?
Como ele conseguiu entrar aqui?
— Existem coisas que
você não pode saber, se contente com o que eu te contei até aqui.
— Você está me
ouvindo? — Lua segurou o braço dele — Aquela mulher é minha melhor amiga.
Aqueles bebês são meus sobrinhos e você não me explicou nada até agora, fica
apenas com esses enigmas.
— Não! — ele respondeu
mais alto do que pretendia, fazendo os dois olharem imediatamente para Sophia.
Ela continuava dormindo — Você não entende Lua, quanto menos souber, melhor. O
que eu te contei até agora é suficiente.
— Isso não faz o
menor sentido.
— Faz pra mim.
— Você está com medo.
Ele permaneceu em
silêncio.
— Micael... — ela
suavizou a voz — Eu nunca vi você assim.
— Eu também nunca
tive tanto a perder.
— O que você fez? -
Lua sentiu o peito apertar.
Micael virou o rosto
em direção à esposa adormecida. Sophia parecia tranquila, completamente alheia
à conversa que acontecia a poucos metros dali.
— Eu fiz o que
qualquer homem faria para proteger a família.
— E qual foi o preço?
Ele a encarou por
alguns segundos.
— Você precisa me
prometer uma coisa – Micael dizia –Lembra a promessa de nunca sair de perto
dela?
-Sim, como iria
esquecer?
-Ela continua de
pé... eu vou estar aqui o tempo necessário, mas eu não sei o que vai acontecer
depois, e você precisa seguir tudo.
— Eu sempre vou estar
ao lado dela, você sabe disso –Lua declarou
— E dos meus filhos
também – disse suspirando
— Vocês são minha
família Mica...sempre serão, independente da loucura que esteja passando nessa
sua cabecinha – ela disse rindo
— Você é especial pra
gente Lua, você sabe...
-Claro que sei,
aliás, quem mais te ajudaria com essas loucuras?
-Eu fico mais
tranquilo agora – deu um sorriso fraco – Eu vou precisar fazer uma ligação,
fica com a Sophia que daqui a pouco eu volto.
-Não demore, porque
se ela acordar e não te ver, eu não quero nem saber o que vai acontecer
contigo.
-Eu vou voltar antes
disso – disse rindo e saiu do quarto.
Lua permaneceu
imóvel por alguns segundos, tentando entender aquela conversa. Conhecia o
amigo, sabia que ele tinha uma mania irritante de querer resolver todos os
problemas sozinho, mas daquela vez havia algo diferente. E, pela primeira vez,
ela teve medo de que Micael estivesse se envolvendo em alguma coisa da qual não
conseguiria sair.
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