Narrador
Nem todo mundo esta preparado
para o pior, às pessoas crescem acreditando que tudo terminará com o tal: “felizes para sempre”,
acreditam que irão viver sem dor, sem tristezas, sem mágoas, e por isso acabam
sempre culpando quando algo de ruim acontece. Mas o que seria da alegria se não
experimentássemos as tristezas ? O que seria do amanhecer se não
experimentássemos as noites ? O que seria do bom, se não experimentássemos
o mal ? Acho que dá pra ter uma noção do que quero dizer. A verdade é que
só damos valor às coisas quando conhecemos o seu lado ruim. Só agradecemos pelo
sol quando a noite vem nos causar medo, só ficamos realmente felizes quando
outrora a tristeza nos visitou, só aproveitamos as pessoas quando já sentimos
no passado a dor da saudade, só damos valor aos momentos quando já vimos o quão
angustiante é perder ele, só prezamos uma amizade quando um dia já sentimos a
dor que é vê-la partir, só falamos :“eu te amo” quando percebemos que por falta
dele aquela relação não deu certo…Ou seja, o que seria levantar se não
existisse as quedas ? Cada coisa, por mínima que pareça, vai fazer uma
diferença, não se entristeça por teres perdido o sol, as lágrimas te impedirão
de ver as estrelas,não chores por que algo aconteceu, tenha a esperança que do
nada surge “tudo”, afinal, foi do caos que nasceu a Terra,então por que o medo?
Quando Micael ouviu aquelas dolorosas palavras saírem da
boca do médico, a sua primeira reação foi dar um passo pra trás, segurou-se na
mesa, coçou a cabeça e levou sua mão ao coração, este batia a uma velocidade
tão forte que podia imaginar a hora dele saltando do seu peito. Respirou firme,
e sem conseguir dizer uma palavra se virou rapidamente colocando a mão na
maçaneta da porta com a intenção de sair daquele lugar, e foi nesse momento,
quando a porta se abriu que ele viu a baixo Sophia encolhida no chão. Micael
perdeu as forças naquele momento, queria saber o que ela fazia ali quando
deveria estar na outra sala esperando seu retorno, também se perguntara se ela
havia escutado o que o médico disse, mas não seria necessário perguntar, seu
rosto banhado em lágrimas dizia que sua pessoa estava ali tempo suficiente para
ouvir o que precisava. Sem mais demora ele se abaixou e a pegou nos braços
ainda mole, os olhos azuis dela encaravam os seus olhos pretos, como se
esperasse saber se era mentira tudo aquilo, e ao encontrar os olhos de Micael
banhados em lágrimas, ela soube, que cada palavra dita ali tinha sido verdade.
E foi nessa hora que Sophia se pôs a chorar mais uma vez, só que agora, mais
forte.
-Vou chamar a enfermeira para injetar uma dose de calmante
na veia dela – Médico.
-Pode ficar aí mesmo, não se dê ao luxo de fazer isso, eu vou
tirar ela daqui – Micael disse segurando Sophia no colo.
-Não pode fazer isso, no estado que ela se encontra precisa do
acompanhamento de um médico.
-Médico ? Desde quando aqui existem médicos ? Pelo que
eu soube desses exames tudo aconteceu porque houve um erro médico partido dessa
unidade. Não ficarei mais nenhum minuto aqui.
-Senhor Micael contenha-se. É bobagem você sair com ela desse jeito,
olhe como seu corpo esta frágil, isso pode ser prejudicial ao…
-Ao ? – Micael perguntou intrigado com o que o doutor ia
dizer.
-A gravidez psicológica – ele hesitou – Nesses casos as
pacientes precisam ficar em observação todos os dias, por vinte e quatro horas
antes que o estágio piore. Olhe você mesmo e responda se dará conta de cuidar
dela caso esse estágio venha avançar.
-Eu cuido, não se preocupe – ele deu alguns passos em direção à
saída.
-Micael, me ouça, trabalho nessa área há anos, e conheço alguns
casos que terminaram muito mal porque a família não quis dar a assistência
necessária. Ela vai piorar dia após dia, semana após semana, em alguns momentos
você até acreditará que existe um bebê ai dentro, de tão real que vai
parecer…Mas no final, a dor vai ser grande, pior do que a que você sentindo
nesse momento. Eu sei o quanto a ama, mas precisa deixá-la aqui, com alguns
medicamentos ela vai recobrar os sentidos e com a ajuda de nossa psiquiatra
perceberá que o bebê é fruto da sua imaginação.
-Você é que esta precisando de um psiquiatra ! Eu não quero
ouvir mais nenhuma palavra. Guarde suas teorias pra você mesmo, se existe um
remédio que pode “curar” a Sophia, esse remédio é o nosso amor. Passar bem .
Essas foram as últimas palavras que foram ditas por Micael,
depois disso ele saiu do Hospital mais que depressa, levando consigo Sophia nos
braços, ele a colocou no carro e esta foi acordando devagar, Micael beijou sua
testa enquanto ela começava a chorar mais uma vez apalpando a barriga, que
agora estava “vazia”. Ele quis lhe fazer algumas perguntas, mas antes que o
fizesse ela sussurrou baixo:
-Me leve pra casa .
-Durma, quando acordar já estará em nossa cama.
E foi exatamente isso que ele fizera, levou Sophia para o
apartamento. Os dois subiram juntos e entraram no quarto, ela permaneceu
quieta, tirou as sapatilhas dos pés e deitou na cama, Micael foi até a cômoda e
pegou um fino lençol para que pudesse enrola-la ,e quando se aproximou ela
pôs-se a chorar mais uma vez, ele se juntou no corpo dela e começou a beijar
seus cabelos enquanto ouvia seus infindáveis soluços. Ficaram por muito tempo
assim, abraçados, e inconsoláveis. Micael sentia que precisava dizer alguma
coisa, mas o que falar ? Sophia queria desabafar, mas como ? Era como
se seu corpo estivesse preso a uma notícia devastadora que nunca pensou que
iria ouvir : " Ela não está grávida ".
“Ela não pode mais ter filhos” essa voz ecoava gritantemente
em sua cabeça. Micael percebeu quando ela se encolheu, e resolveu quebrar o
silêncio:
-Eu estou aqui – Ele sussurrou, aquela frase clichê que todo
mundo ser humano gostaria de ouvir.
-Me deixe Sozinha ! – ela respondeu em meio as lágrimas
-Nunca ! Precisa de minha companhia.
-Eu sei… Mas também preciso de alguns minutos sozinha, eu, minha
dor, minha dor e eu !
-Não sairei daqui, mesmo se me implorares !
-Por favor, faça isso por mim ? – ela voltou a dizer e se
esticou de forma que seus olhos se encontrassem com os dele – Eu preciso ficar
sozinha por alguns minutos…
-Princesa…
-Micael… –disse quase que num sussurro.
-Tudo bem – ele respirou fundo – Mas precisa me prometer que
ficará bem, e outra coisa, vou ficar na sala, se sentir alguma coisa é só me
chamar ok ?
-Não se preocupe…Serão apenas alguns minutos.
-Ok, eu confio em você – ele disse e selou seus lábios com os
delas, Nossa como sua boca estava gélida, Micael pode sentir toda a tristeza de
Sophia concentrada em seus lábios, naquele momento ele sentiu seu corpo doer.
Ele estava triste, e como estava, pode-se dizer que no seu interior nada mais
era intacto, era como se um furacão tivesse o alcançado e destruído todas as
suas terminações nervosas. Mas ele se mantinha concentrado, procurava não
demonstrar nada. Permaneceu firme, firme por ela. Então, Afastou-se devagar dos
lábios da amada e tocou em seu rosto fino, logo se levantou , fechou a porta e
foi para a sala. Lá, sozinho, ele sabia que era a hora de desabar, bancar o
homem forte sempre fora seu feitio, mas às vezes, até os mais fortes choram, e
essa era sua hora, ele deitou no sofá, e ali chorou, por horas a fio.
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