Sophia Narrando
A vida verdadeiramente é uma roda gigante. Não dá pra negar. Um
dia, estamos lá em baixo, com todas as nossas expectativas e sonhos rastejando
no chão, dá até vontade de parar, de apertar um botão escrito “the end” e
simplesmente sair daqui, porque não é o melhor lugar para viver. E tem outros
dias que estamos lá em cima, com nossa felicidade em alta, com um sorriso largo
no rosto, e nos sentimos tão fortes, tão confiantes que podemos até dominar o
mundo, é como se nada pudesse nos atingir. Pois bem, somos todos rodas
gigantes, com turbilhões de emoções, uns dias felizes, outros dias nem tanto,
mas de uma coisa é certa, a dor pode até ser massacrante em alguns pontos de
nossas vidas, a tristeza pode ser constante, mas a felicidade vai ser moradora
permanente em nosso coração, ela pode demorar a chegar mais o importante é que
ela venha pra ficar e não apenas de passagem. E a minha, bom, minha felicidade
chegou para ficar e nunca mais se ausentar.
Era assim que me sentia hoje. O dia acordou mais iluminado, parecia
que o sol tinha se posto apenas para mim, e de fato era. Não me importava mais
com nada, e qualquer tentativa da vida para me fazer chorar com certeza
falharia, porque eu estava em alta, e nada me abalaria. Levantei cedo, não
consegui ficar na cama, era como se quisesse gritar para o mundo que estava
carregando um filho, e era isso que faria. Preparei um café e devorei logo
depois tudo que continha na mesa, deixando apenas alguns pães para Micael.
Sorri com a fome que estava dentro de mim, nunca pensei que um dia fosse rir
por estar tão faminta, mais de fato estava sorrindo, como uma verdadeira boba.
Agora lá estava eu, encostada no balcão da cozinha conversando com Lua e Mel
por conferência no telefone, elas estavam incontroláveis com a notícia, e eu achava
graça de tudo:
-Temos que comemorar Soph, merecemos uma comemoração – Lua
dizia.
-Concordo com a Lua, temos que fazer algo hoje à noite – Mel
concluía.
-Até parece que são vocês que estão grávidas- respondi
-É como se fosse, aliás serei a madrinha, então é uma segunda
mãe entende? – Lua
-Não pode deixar Lua ser a madrinha Soph. Ela é meio
“desmiolada”. Seu bebê precisa de alguém maduro, para lhe ajudar na vida – Mel.
-E você se acha muito madura né Mel? Sophia não vai deixar uma
viciada em sexo ser madrinha de um bebê tão fofo - Lua
-Como se você não fizesse né? –Mel alfinetou.
-Meninas, por favor, não comecem – Sophia interrompia – Hoje o
dia é especial lembram?
-Ah claro, vamos voltar ao foco, que é a comemoração. Aonde quer
ir Sophia? – Mel
-Bom, não sei…Acho que podemos comer pizza o que acham ? –
Respondi colocando um pedaço de bolo em minha boca.
-Talvez. Mais eu prefiro algo mais agitado. Podemos ir a uma
festa que vai ter hoje no salão, aquele que fomos quando você chegou aqui e não
podia entrar – Lua.
-Salão? – sorri – Micael nunca vai deixar a gente ir num salão.
-Como não? Ele adorava aquele lugar antes – Mel
-Disse bem, antes ele gostava. Mas acho que hoje…
-Pare de ser “estraga prazeres” Sophia. Nós vamos sim – Lua
disse firme
-Mas Micael pode ir com a gente né?
-Aiii Sophia que grude vocês dois, é só uma noite separados-
Lua.
-Mas mesmo assim, acho que ele deveria ir… – Respondi e logo em
seguida senti alguém me agarrar pela cintura depositando um leve beijo em meu
pescoço. Sorri ao sentir o perfume que chegava até minhas narinas, podia
reconhecê-lo de longe, ah podia.
-Sophia? Ta ouvindo? Desmaiou? – Mel perguntava aflita.
-Estou…aqui… Mel… – respondi com voz falha, pois Micael colocava
suas mãos dentro da minha camisola, e fazia o majestoso gesto de me acariciar.
-Decidiu onde quer ir? Precisamos saber logo para pegar os
convites – Mel respondia…
-Hum….- resmunguei enquanto Micael apertava minha coxa
ferozmente. Aquilo não era normal. Estava perto de me despedaçar, ele pagaria
por aquilo.
-Sophia - Lua gritou – Mande Micael sair de perto de você.
Está numa ligação;
-O que? Como ? – disse atordoada.
-Passe o telefone pra ele – Lua ordenou e eu fiz o que ela pediu
– Bom Dia Micael, nosso mais novo pai. Por favor, queria deixar sua esposa
falar com a gente? Se controle e fique com ela a noite. Obrigada.
-Lua como sempre com gracinha – Micael respondia
-Deixe a mãe do seu filho em paz pelo menos pela manhã…A
propósito, parabéns, já estou sabendo.
-Obrigada Lua…Agora será que dá pra você desligar e deixar eu
passar o dia com ela ? –Mica
-Sim, mas com uma condição. Terás que deixá-la ir com a gente
pra festa no salão hoje –Lua respondeu.
-Salão? Vocês ficaram doidas ? –Mica respondia nervoso.
-É a noite das Mulheres e vamos comemorar a gravidez. – Mel
-Okay. Mas não podem comemorar isso num restaurante, cinema, uma
coisa mais formal? –Mica
-Não! Vamos relembrar dos velhos tempos –Lua.
-Pois fique sabendo que ela não vai – Mica disse firme.
-Micael pare de ser chato. Ela quer ir, vai ser rápido – Mel
-Ela não vai e ponto final. Tenham um bom dia meninas, passar
bem. – Ele disse e desligou o celular.
-Desligou na “cara” delas? – Perguntei.
-Não. Eu me despedi antes…. – respondeu pegando um pão de
queijo.
-Amor, elas não fizeram nada, só querem sair…Elas sentem a minha
falta.
-Eu sei, mas que procurem outra diversão, porque sair pra dançar
eu não vou deixar mesmo.
-Não vou dançar, juro que fico sentada.
-Vai permanecer sentada o tempo inteiro? – ele perguntava
-Se você quiser nem respiro e muito menos olho para os lados –
brinquei.
-Mesmo assim, não vai – ele virou tomando um gole de café.
-Micael, por favor, elas querem comemorar, eu estou grávida
lembra?
-Lembro. Grávida de um filho meu, nada mais justo que comemorar
comigo.
-Amor, já comemoramos ontem. Juro que vai ser rápido, vamos
apenas conversar, comer alguma coisa e pronto, voltamos logo em seguida, você
nem sentirá minha falta.
-Não consigo entender porque vocês escolherem justo um salão de
danças para comemorar. Eu estaria totalmente de acordo se fosse a algum
restaurante ou um lugar assim, mais um salão Sophia?
-Amor foi Lua que escolheu, é pra relembrar os velhos tempos….
-Sabia que essa ideia maluca era da Lua. Ela vai me pagar…..
-Mas eu concordei, então tenho parcela de culpa também.
-Eu sei. Mas Lua é incontrolável…Vê se pode, você está grávida,
precisa evitar multidões, barulhos, danças e tudo mais…
-Amor eu estou grávida, não estou doente.
-Ahhh Sophia – ele disse abocanhando mais um pedaço de pão de
queijo – Você não me entende.
-Não mesmo. Muita frescura sua. Eu sei me cuidar sozinha, vou
estar bem…
-Essa não é questão – ele se aproximou- Lá não é um lugar para
você.
-Eu já disse que vou ficar bem, já sou bem crescida não acha?
-Eu sei…- ele me puxou para que se sentasse em colo e eu
esquivei.
-Quero terminar nossa conversa – protestei me afastando de seu
corpo.
-Já terminamos, não há mais o que dizer…Vocês podem ir a todos
os lugares, menos lá.
-Eu vou – disse nervosa – E você não vai me impedir…
-Sophia – ele me chamou sério
-Você não é meu dono lembra? – alfinetei.
-Mas o filho que carrega é meu …
-Mas ele está na barriga, então é mais meu do que seu…
-Não acredito que a gente vai começar a brigar por isso. Ele é
nosso Sophia, nosso.
-Eu sei – abaixei a cabeça – Vou me deitar, estou cansada.
-Sophia volte aqui, precisamos conversar ainda ….
-Já esta decidido…Você querendo ou não, eu vou
-Sophia, Sophia- ele me chamava enquanto eu sumia por entre os
cômodos. Eu sabia que aquilo não era certo, mas o que havia de mais numa noite
com as amigas? Sei que o salão não era o lugar mais apropriado, eu nem gostava
da ideia de ir, mas me irritei com o jeito que Micael falava, parecia que eu
era sua propriedade ou coisa parecida, então decidi que eu iria, quer ele quer
não, eu ia.
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