Micael Narrando
Eu estava sentado no balcão, a música ainda era alta, as luzes aumentavam cada vez mais e eu tentava não matar os meninos por aquela ideia absurda que tiveram ao me trazer lá. Estava furioso demais, mas por sorte tinha encontrado uma companhia. No começo fiquei meio apreensivo de iniciar a conversa, Nath era uma mulher muito bonita, e não sabia o porquê de tantas perguntas direcionadas a mim, previa que poderia estar com segundas intenções. Mas depois da inciativa de contar que era noivo e mostrar a foto de Sophia, a coisa melhorou, fora uma ideia perfeita falar logo de cara que era comprometido, isso a assustou e fez a conversa se tornar sútil, calma, e sem muitas indiretas. Ficava me perguntando quando eles resolveriam ir embora, não queria deixa-los ali, de certa maneira eu estava os vigiando, eles amavam suas namoradas, mas são esses malditos hormônios que estragam a coisa toda, e por isso decidi que sair não seria uma boa ideia, se chegasse em casa sem eles precisaria explicar onde estávamos, e certamente isso causaria uma briga daquelas. Então me atentei em esperar, vigiar e ser o mais cauteloso o possível. Mas eles me pagariam, ah se me pagariam.
-Vejo que ama muito ela – Nath falava logo depois de contar um pouco sobre nossa história.
-Amo muito mesmo, Soph me tornou uma pessoa melhor, me fez ver um mundo diferente, ela era exatamente o que faltava em mim.
-Você vai me fazer chorar falando desse jeito – ela brincou- Mas e aí, vai passar sua despedida aqui?
-Na verdade, eu nem sabia dessa loucura, meus amigos são terríveis.
-Eles só querem que você se divirta, não tem nada mal nisso.
-Não teria mesmo, se não estivesse noivo, e com minha futura mulher em casa enjoada por nosso filho – risos
-Esqueci desse detalhe – risos- Mas ela nem saberia, o que acontece na boate, fica na boate.
-Bom argumento… Mas eu saberia, e isso me deixaria muito mal. Então melhor prevenir.
-Você é hilário – ela falava enquanto começava a dançar ao som da música que se iniciava.
-Você pode dançar no seu local de trabalho?
-Claro. Minhas danças fazem vender mais bebida, estratégia de marketing.
-Muito bom – dei mais um gole no refrigerante
-Vamos ficar mais perto da passarela, lá tem espaço pra dançar –ela disse me puxando
-Mas eu não quero, estou bem aqui.
-Pare de ser bobo, é só uma música, e nem precisa dançar, só fica lá. Vai gostar.
Depois que ela disse isso não consegui dizer mais nada. Quando dei por mim já estava na frente da passarela onde aconteceria o show dentro de alguns minutos. Pude ver Chay e Arthur ao meu lado, eles estavam bebendo e sorriram ao ver as mãos de Nath em meu braço. Foi nesse momento que me soltei dela e disse baixo:
-Não encosta em mim desse jeito, não me leve a mal, mas tenho…
-Uma noiva. Sei bem disso refrigerante…Só te trouxe aqui para ficar com seus amigos, pois o show vai começar e preciso me arrumar.
-Se arrumar? Como assim ?
-Não te contei né? Além de garçonete também sou dançarina da casa, e já estou atrasada para me produzir. Você não queria ver o show, mas estarei nele, então achei que mudasse de ideia.
-Mas você disse que as meninas…
-Fique calmo, elas não encostarão a você. Eu sou a líder das dançarinas, e já vou ordenar. Você é nosso convidado especial, só vai assistir a dança, apenas isso.
-Eu não posso, eu…
-Seus amigos pagaram uma nota por isso, faça-os feliz. Finja gostar e pronto – ela disse e saiu correndo para se arrumar. Naquele momento fiquei pasmo com tal declaração. Arthur e Chay tinham armado pra mim, desde o começo ela sabia que eu era o noivo, por isso se aproximou tanto, por isso se interessou tanto por cada coisa. Tentei respirar fundo, mas aqueles dois tinham ido longe demais. Tentei me levantar, mas foi nesse momento que a luz ficou baixa e o a música mudou. A fumaça veio mais forte e a “passarela” foi tomada por perfeitas dançarinas, em seus trajes pequenos, que começaram a dançar sem hesitar. Quando dei conta, já era tarde para voltar.
Estava sentado na cadeira, quando Nath veio dançando pra cima de mim. Ela estava cobrindo apenas as partes íntimas, e desfilava num salto alto. A maquiagem bem feita, o cabelo sedoso que escorregava no seu corpo definido. Ela se balançava conforme a música e eu queria sair, mas com aquelas pessoas todas gritando era impossível. Virei o rosto a repreendendo. Ela mesma tinha me garantido que ninguém me encostaria, e agora estava lá, totalmente rendida a mim. Peguei-a pelo braço e sussurrei bravo:
-Onde esta com a cabeça?
-É só uma dança, é apenas meu trabalho. Prefiro dançar pra você que conheço, do que para esses velhos babões. Quebra esse galho pra mim.
-Você…
-Se não aguenta me ver assim na sua frente é sinal que algo aí em baixo quer uma coisa minha, só acho – risos
-Para de falar assim – disse firme e a soltei. Ela se virou e foi para o pole dance. Virei meu olhar quando ela começou, e o meu pensamento foi para Sophia. Ela que estaria em casa agora descansando e eu aqui, sendo “tarado” por essa dissimulada. Senti-me mal, muito mal, e torci para que tudo acabasse logo. Teria que acabar imediatamente, porque Nath estava vindo em minha direção novamente.
Sophia Narrando
Nunca dirigi tão rápido na minha vida. Havia pegado o carro do meu pai e o mesmo corria por entre aquelas ruas. Minha cabeça fervia e meu coração palpitava. Eu não sabia muito que estava fazendo, mas sabia que precisava chegar o mais rápido possível para impedir que qualquer uma se aproveitasse do lado fraco de Micael. Lua e Mel me olhavam pelo retrovisor e se mantinham caladas. Eu não estava para conversa, só queria acabar com aquilo, só queria resolver tudo da minha maneira, mesmo que pra isso tivesse que me submeter aquele plano um tanto quanto arriscado. Foram nesses pensamentos que acabei chegando ao local, estacionei o carro e fui para a porta da boate. Lá fora fomos surpreendidas por alguns seguranças que questionaram nossa entrada. Eu então tomei a frente da situação.
-Somos as dançarinas extras contratadas. Parece-me que estão faltando três, e fomos chamadas de emergência. Fui informada que o clima lá dentro esta um tanto quanto tenso, estão faltando meninas para satisfazer os clientes mais ricos da casa. Disseram que teríamos que aparecer em minutos ou os mesmos sairiam, conseguimos chegar agora.
-Mas não fui avisado disso – disse o homem de preto que media quase dois metros de altura
-Não foi planejado, aconteceu tudo agora. Se quiser pode conferir, mas não acho que queira fazê-lo, já que o show se iniciou. Imagine a reputação que ficará a casa por falta de dançarinas. Os clientes ricos são os mais exigentes e impacientes, lidamos com isso há tempos.
-E como vou saber que… – Antes que o guarda falasse algo abri o meu sobretudo lhe mostrando a “roupa” que estava por baixo. Por sorte minha barriga não estava tão amostra assim, corei quando o vi olhar de cima a baixo, mas aquilo era preciso – Me desculpe, podem entrar.
-Disponha – respondi e entrei na casa. Onde tudo aconteceria.
Lá dentro era cheio demais, as luzes, a música envolvente, e todos aqueles caras nas mesas “comendo” com os olhos cada dançarina. A princípio senti nojo por vê-los, aqueles olhares eram horríveis, eles passavam as mãos em todas elas, as tratavam como se objetos o fossem, e davam-lhe dinheiros quando essas dançavam exatamente pra eles. Virei o olhar e segui adiante, certificando-me que aquele era o caminho para o camarim… Depois de alguns segundos eu estava lá dentro com as meninas. O quarto era cheio de luzes, espelhos e fantasias, ousadas ou não, trajes íntimos e todo o tipo de roupa. Corei ao ver certas coisas, mas respirei firme e peguei as fantasias. Mel me olhou espantada e disse:
-O que pensa em fazer com essas fantasias?
-O que achas Mel? – sorri sarcástica – Vamos enfeitiçar nossos homens.
-Amei a ideia, eles vão nos pagar – Lua disse
-Eles vão nos matar, isso sim –Mel
-Se quiser pode ficar aí, enquanto aquelas piranhas ficam de quatro para o Chay o que acha? – Disse enquanto me arrumava.
-Não, eu prefiro ir- Mel disse vencida.
-É melhor você ir mesmo, pois essas vacas tem coragem de colocar a boca onde você se recusa então você esta em desvantagem – Lua brincou
-Meninas, paremos com os comentários, e mãos a obra.
Foi assim, cada uma para um lado procurando algo para usar, uma fantasia, uma maquiagem, qualquer coisa. A noite ia começar.
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