Micael Narrando
Minhas mãos soavam, minhas pernas tremiam, meu coração já não pulsava em um ritmo normal. Eu olhava Sophia deitada na cama e não conseguia conter a alegria de vê-la lá. Na verdade eu só conseguia sorrir feito bobo, sem explicação alguma. Ela estava grávida, era um filho meu, e eu não poderia querer outra coisa no mundo. A médica estava em outra sala fazendo os preparativos para ultrassom, e Sophia deitada não parava de olhar pra mim. Então caminhei até ela e peguei sua mão, ela sorriu serena e disse:
-Estou um pouco nervosa.
-Shiu – beijei sua testa – Nossa filha não pode nascer estressada.
-Amor, eu to tão feliz, eu nem consigo – ela dizia com os olhos marejados.
-Já estou vendo que esse ultrassom vai ser difícil – disse brincando
-Eu te amo Micael, te amo mais do que posso suportar.
-Eu te amo muito mais Sophia, nunca duvide disso – disse sorrindo – Agora se recomponha ou nossa filha nascerá igual à Lua, atacada – disse fazendo graça, e antes que pudéssemos rir a médica chegou e anunciou.
-Srta. Sophia você tem visita.
-Como assim? – Sophia respondeu assustada.
-Creio que a senhorita deve saber, um momento, vou pedir que eles entrem. Daqui a cinco minutos eu volto.
A médica falou aquilo e saiu, logo depois entrou na sala Arthur, Lua, Mel e Chay, fazendo aquele “auê”.
-Pensaram que não viríamos né? – Lua disse esbaforida
-Até parece que a gente ia perder, viemos acompanhar tudo de perto – Mel respondeu em seguida.
-Ah contem a verdade, viemos aqui pela aposta – Chay disse
-Aposta? Que aposta? – Sophia perguntava.
-Estamos apostando cem reais que será um menino – Arthur disse convicto.
-Mentira que estão apostando o sexo do meu bebê…- Sophia disse rindo.
-Esses meninos são teimosos, eu disse que vai ser uma menina – Mel disse.
-Só porque você quer né Mel ? Eu to com o Arthur, vai ser menino…
-Os meninos são chatos de cuidar, prefiro uma menina…-Mel
-Se Sophia tiver uma menina eu juro que vou pegar ela pra cuidar, porque vocês vão encher ela de frescuras –Lua
-Já estou vendo que eu vou ser madrinha – Mel disse suspirando.
-Não, eu vou ser e chega de falar nisso –Lua
-GENTE – Sophia disse dando um fim na discussão – Eu acho que estão exagerando não é mesmo? Se for menino, ou menina eu sei que vai ser muito bem vindo no nosso grupo, e vocês serão os tios mais babões do universo.
-Sim, eu vou amar ela – Mel disse quase chorando.
-Amor, eu vou ser sincero – disse entrando na discussão – Eu aposto duzentos reais que vai ser uma menina.
-Uma menina ? – Arthur disse – Não cara, tem que ser um menino pra gente ensinar pegar as meninas e…
-CHEGA – Sophia disse firme – E Micael você pode ir parando…
-Ok Ok…vamos sair gente e fazer as apostas lá fora – Chay disse rindo
-Não vão ficar aqui ? –Sophia perguntava
-Até queríamos amiga, mas a gente acha que esse momento tem que ser seu e do Micael – Lua
-Obrigada – Sophia dizia emocionada – Vão esperar a gente lá fora então né?
-Claro, ainda precisamos saber o sexo do bebê – Mel dizia.
-Eu sou a favor de dobrarmos a aposta, to confiante que vai ser um menino – Chay
-CALA A BOCA CHAY – Mel, Lua e Sophia responderam juntas.
-Tabom, eu não falo mais…só que se for um menino eu vou querer um cheque de cada um… –Chay
-Vamos embora logo, daqui a pouco vão nos expulsar – Mel disse puxando o mesmo.
-Concordo – Lua puxou Arthur – Vamos deixar os pombinhos a sós.
-Nos vemos lá fora então – Sophia disse
-Amiga, fica calma…ela vai ser linda – Mel dizia enquanto ia em direção a porta.
-Eu sei, eu sei – Sophia respondeu sussurrando.
Quando todos deixaram a sala, senti uma “paz” no ar, e agradeci por eles terem saído. São nossos amigos, mas aquele momento queria que fosse só eu e a Sophia. Eles acompanharam nossa dor de perto, dia a dia, nos ajudaram, mas naquele momento, eu só queria Sophia ali comigo, só pra ter certeza do nosso sonho juntos. Então me aproximei do seu corpo e depositei um beijo em seus lábios, mas me afastei quando ela perguntou:
-Quer mesmo uma menina Sr. Borges?
-Hum…Se for igual a mãe, eu quero sim uma menina…
-Sinto em dizer, mas eu quero um menino, igualzinho a você – ela fez graça.
-Teremos um problema então – sorri e coloquei a mão em sua barriga – Mas seja o que for, eu quero que nasça logo.
-Sim, que nasça logo – ela colocou sua mão sobre a minha e acariciamos a barriga mais uma vez.
-Desculpa interromper – a médica dizia entrando na sala – Mas precisamos fazer a ultrassom, já demoramos demais.
-Ah claro….- Disse me afastando.
Fiquei no canto da sala enquanto a médica preparava Sophia. Naquele momento um flashback passou em minha mente. Pensei em como Sophia havia mudado a minha vida ao longo daqueles anos. Pensei no quanto eu era vazio antes da sua chegada, rodeado por pessoas vazias, que só me faziam bem por um momento, mas depois aquilo passava. Antes dela tudo era realmente uma droga, e nem valia a pena lembrar… Mas depois da sua chegada a vida passou a ter sentido, a valer a pena. Eu não sei dizer o que me prendeu a ela, talvez fosse o jeito menina, princesa, misturado com a teimosia que só ela tinha. Talvez fosse a pureza, a forma leve que ela tinha de viver… Mas aí me dou conta que me apaixonei por tudo, até por seus defeitos. Sophia era a única mulher que amava na vida, a única que conseguiu tocar mais que um corpo, um coração. Vê-la deitada naquela cama, com a blusa levantada mostrando o volume que havia em sua barriga me fez estremecer. Nosso filho, ou filha estava lá. Sabe o quanto eu ansiava por isso? O quanto eu implorava pra ela me dar um filho? Pois bem…Por várias noites eu pedia, eu insistia…eu sempre quis, e lá estava ele, tão pertinho da gente… realmente a vida estava valendo a pena, e se tudo acabasse ali, se aquele dia fosse a última página de nossas vidas e depois aparecesse o “the end” dos filmes, eu tinha certeza que poderia gritar : Valeu a pena!
A médica começou a ultrassom. Sentou-se em sua cadeira e pegou o seu pequeno instrumento de trabalho. Passou um pequeno gel na barriga de Sophia, e com a outra mão começou a explorar a região. Sophia mantinha os olhos firmes nos meus, estavam marejados, e eu sabia que ela estava com medo, sua face me dizia isso. Havíamos passado por tantas coisas que eu me surpreenderia se ela não tivesse assim. Dei um sorriso fraco e mandei um beijo no ar, numa forma de dizer que “tudo estava bem”. Ela fechou os olhos, e ficou assim por um tempo, enquanto a médica fazia o exame….
Depois de alguns minutos eu comecei a me desfalecer. Será que era normal tanta demora assim ? Eu olhava para aquela tela e não via nada, tudo preto, e me perguntava se ela estava fazendo o procedimento certo. Tentei não demonstrar isso pra Sophia, mas eu percebi que ela já estava agoniada. Não esperávamos que demoraria tanto assim, alguns minutos talvez, mas achei que logo ela falaria alguma coisa do tipo “olha ele aqui” ou “como ele é grande”. Só que ela não disse nada, e aquilo estava me torturando….
Foi quando algo extremamente estranho aconteceu…A médica simplesmente levantou da cadeira, limpou um pouco do gel que continha na barriga da Sophia e ficou nos olhando por um longo tempo até que disse:
-Me desculpe. Eu vou precisar ir à outra sala e pegar um novo equipamento, esse aqui deve estar com defeito. Não se assustem caso trouxer outro médico comigo, só queremos analisar o caso… Volto já, fiquem a vontade.
Quando ela falou aquilo Sophia caiu em lágrimas, sua pele branca deu lugar a uma cor vermelha. Eu não sabia o que dizer pra ela, afinal eu também estava nervoso. Que merda de aparelho quebra bem na hora de um ultrassom? Isso não podia estar acontecendo. Minha vontade foi de sair de encontro àquela médica e dizer: “entre lá dentro e revele o sexo do bebê é só isso”. Mas fiquei parado. Respirei fundo e fui até minha princesa que a esse momento tremia.
-Pare com isso amor, ela só foi pegar outro aparelho, só isso…
-Micael tem alguma coisa errada você não viu? Ela olhava pra gente estranha, como se tivesse com medo, sei lá.
-É coisa da sua cabeça…
-Você conseguiu ver alguma coisa no ultrassom? – quando ela perguntou aquilo estremeci, fiquei com vontade de mentir, de falar que consegui ver uma perninha, um bracinho, qualquer coisa, mas mentir pra ela nunca foi do meu feitio, Sophia me conhecia bem, e apesar de ser o “mestre das mentiras” aquela não era a melhor hora.
-É…eu …eu…acho que não…- disse fraco
-Ta vendo Micael? Tem alguma coisa errada – ela disse exaltada – Tem alguma coisa….Mica, ele não se mexeu hoje, não mexeu lembra? Ele sempre se mexe toda a manhã…Micael me diz que…
-Eu vi - disse firme, e que se dane a merda da mentira. Eu não podia ver Sophia daquele jeito.
-Que ?
-Eu acho que vi alguma coisa…só que bem na hora desligou tudo…É…acho que vi mesmo…
-Aiii – ela suspirou aliviada – Se você conseguiu ver alguma coisa então ta tudo bem né?
-Sim…foi pouca coisa mesmo…mas ele esta aí – disse tocando a barriga – Esquece isso amor, okay?
-Okay – ela disse sorrindo.
Não sei quanto tempo demorou até que a doutora retornou a sala, só sei que mentir pra Sophia me deixou mal, mas era preciso, eu não poderia tornar aquilo mais difícil do que já estava. Os minutos seguintes foram de agonia, ela estava calma, mas eu pedia mentalmente aos céus que tudo realmente estivesse bem, pois não suportaria perder passar por tudo mais uma vez.
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