Sophia Narrando
O barulho das chaves, o desespero, a correria. Tudo junto e misturado.
Micael soltou meus braços e saltou para trás do sofá, tão rápido que mal deu para piscar. Enquanto eu tentava abotoar minha blusa que se encontrava tão amassada que alguém poderia jurar que havia sido mastigada por uma vaca. Foi tudo muito rápido, até que meus pais entraram:
-Sophia? Micael ? Meninos? – Minha mãe dizia ao entrar
-Estou aqui mãe – disse arrumando o cabelo
-Chegou cedo da consulta – ela disse ao me ver
-É, foi rápido – menti – Mas e vocês, o que fazem aqui a essa hora?
-Seu pai estava desesperado pra saber do netinho dele – ela confessou rindo.
-Quanta audácia – ele respondia enquanto colocava sua pasta no sofá – Eu estava tranquilo, sua mãe que não parava de dizer o quanto queria estar em casa pra saber o sexo do nosso neto.
-Por favor Renato, confesse logo. Sophia vai amar saber o quanto você estava impaciente – disse rindo.
-Talvez – ele confessou – Afinal, é o primeiro neto, tenho direito de estar nervoso.
-Claro pai – disse abraçando-o – Você tem todo o direito de ficar nervoso.
-Mas e aí Soph, como foi lá? Deu pra ver o bebê?- Minha mãe perguntava eufórica – É menino? Menina?
Confesso que naquele momento tive vontade de saltar e dizer: “Sim, é uma menina, um menino, e outra menina”. Essa frase estava querendo fugir da minha boca, estava tão feliz que queria gritar pro mundo, mas não dava. Não era o momento certo, precisei me conter e arrumar uma resposta decente, respirei fundo e disse:
-É surpresa, já mandei até a Maria ir ao mercado fazer umas compras, porque será revelado hoje no jantar.
-Pra que tanto suspense filha? – minha mãe perguntava desanimada – Queria saber logo.
-Pode ir parando de ansiedade, eu e Micael decidimos assim, com todos juntos é bem melhor.
-Mas ele está bem né? –meu pai perguntava preocupado
-Sim, está ótimo – disse rindo
-Falando nisso, cadê Micael ? – ela perguntava olhando para os lados – Ele nunca te deixa sozinha, o que teve hoje?
-Nada mãe – disse pensando na desculpa que ia dar – Ele deve estar tomando banho, não sei…
-Não sabe onde anda seu noivo? – Meu pai perguntava
-É que eu acabei cochilando aqui no sofá assim que cheguei, e ele me deixou dormir…
-Que bom que ele te “soltou” um pouco – meu pai confessava e eu torcia pra que ele não falasse nada de mais, afinal, Micael estava atrás do sofá – É que às vezes, ele fica tão grudado em você que dá até medo –disse rindo.
-Quanto drama pai , eu e Micael somos tão controlados.
-Ah claro… me diga uma só vez que ele te deixou? – perguntou rindo
-Me deixou sozinha hoje, e quando ta trabalhando com o senhor….
-Então, só por motivo de trabalho, esse é o único motivo que faz vocês dois se desgrudarem…
-Pensei que gostasse dele…
-E gosto – ele confessou – Micael tem se mostrado um grande homem, tanto com você, quanto no trabalho. É um homem de respeito, trabalhador, zeloso, cuidador. Certamente um cara ao qual confio entregar minha filha.
-Nossa pai – disse suspirando – Micael deveria ter ouvido isso – sorri
-Deixa eu parar de falar, ou você vai me queimar para seu noivo – ele disse rindo e pegou a pasta dele no sofá – Esse sofá ta tão bagunçado, o que aconteceu com ele?
-Estava dormindo, lembra ? –disse com medo
-Você dorme com a camisa do Micael perto? – meu pai perguntou pegando a camisa do Micael que se encontrava debaixo da almofada, eu tremi, é claro, e tive vontade de matar ele, afinal, que ser humano esconde uma camisa no próprio sofá…
-Ah, é porque ele não é acostumado com camisas sabe, como vocês não estavam em casa, aproveitou pra tirar, ele vive dizendo que fica mais a vontade assim.
-Sei, sei – meu pai respondeu meio desconfiado – Bom, vou subir pra descansar um pouco, aproveito e falo com Micael.
-Não pai – respondi rápido – ele disse que não queria ser incomodado….
-Mas você falou que nem sabia onde ele estava direito….
-É que lembrei agora que ele subiu pra dormir…
-Ah claro, ele ficou com você no sofá até você pegar no sono, e logo depois ele te avisou que ia dormir.
-Sim.
-E você ouviu isso enquanto estava dormindo…– ele dizia sarcástico.
-Eu estava cochilando, deu pra ouvir bem… enfim pai, não o incomode.
-Tudo bem Sophia – ele disse sério e subiu – Outra coisa, nunca minta pra ninguém, você não sabe fazer isso.
-Seu pai tem razão – minha mãe confessava enquanto meu pai subia para o quarto – você nunca foi boa pra mentir
-O que foi agora?
-Soph, ta na cara que vocês dois estavam aos amassos aqui nesse sofá, dá pra ver.
-Que horror mãe, eu nunca faria isso – disse e pude ouvir um riso baixo de Micael.
-Soph, eu não nasci ontem, já fui jovem também. O sofá está amassado, tem blusa e calça do Micael aqui – ela apontou para o outro lado da sala – Pelo menos eu e seu pai éramos mais espertos. Vocês são horríveis pra esconder as coisas.
-Eu mato Micael – disse séria.
-Não faça isso com meu genro, a culpa é sua que não sabe ajudar também, homens não pensam em tudo.
-Ok, mãe…não quero ouvir suas dicas de como esconder as coisas, isso é vergonhoso.
-Tudo bem não falo nada – ela disse rindo e foi saindo da sala – Só tenho uma pergunta, não aconteceu nada no meu sofá né?
-Não mãe !
-Ainda bem, não gostaria de sentar nele caso houvesse acontecido…. – ela saiu rindo – Vou subir pra tomar um banho, aproveite que estarei lá em cima e deixe Micael colocar a calça coitado, ele deve estar morrendo de frio.
Minha mãe subiu as escadas e Micael saiu de trás do sofá vermelho, e todo vergonhoso.
-Vou te matar Sophia, você me faz passar por cada coisa.
-Eu? Quem foi o esperto que esqueceu a calça no chão e a camisa no sofá?
-Não tinha como, foi muito rápido…
-E que ótimo lugar pra se esconder né?
-A culpa é sua que fica com esse fogo todo…
-E você ta super calmo né? – disse sorrindo e entregando-lhe a camisa
-Pelo menos descobri o quanto seus pais me amam- disse convencido – Mas seria impossível eles não se encantar por mim, sou o tipo de cara que todo o pai se orgulharia que a filha casasse….
-Espere só até suas filhas crescerem e encontrarem um namorado igual você – ri com meu comentário
-Elas não vão namorar – ele disse rápido – Tinha esquecido que teria duas filhas, imagina o trabalho…
-Não vão namorar? Até parece, vai pensando assim…
-No momento eu não quero pensar em nada – ele se aproximou – Vai valer a pena todo o estresse, elas serão nossas vidas…
-Sim, eles serão nossas vidas – respondi sorrindo e Micael me puxou para um beijo, como só ele sabia dar.
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