Narrador
Sophia abriu os olhos devagar. A luz forte daquele quarto de
hospital fez sua cabeça latejar imediatamente, por alguns segundos tudo parecia
distante demais. As vozes no corredor, o som baixo dos aparelhos, o cheiro
forte de hospital.
Então ela lembrou: o homem vestido de enfermeiro era Miguel. Foi
nesse momento que seu corpo estremeceu. Sophia tentou se levantar rápido
demais, ignorando a dor da cesárea, tentando tirar o fino lençol que cobria seu
corpo, enquanto procurava os bebês desesperadamente com os olhos:
- Calma, calma… - a voz de Lua surgiu ao lado da cama impedindo
que ela se levantasse - Sophia, você precisa se acalmar.
- Cadê meus filhos? - sua voz saiu falha. - Onde eles estão?
Micael estava pálido, seus olhos vermelhos, o maxilar travado,
como se estivesse tentando manter o controle a qualquer custo.
- Ele tava aqui… - Sophia sussurrou sentindo as lágrimas queimarem
seus olhos. — O Miguel tava na sala de parto.
-Meu amor, você teve uma queda de pressão, desmaiou e precisou de
cuidados. Foi um parto cansativo, talvez sua mente esteja confundindo as coisas.
-Eu não estou louca, sei muito bem o que meus olhos viram. Ele
estava lá dentro o tempo todo...- ela começou a gritar - Eu quero os meus
filhos Micael....
-Eles estão bem Soph - Lua segurava sua mão - eles precisaram ir
para a incubadora por algumas horas, mas estão bem, sua mãe está com eles.
Sophia respirava rápido demais, seus olhos percorriam o quarto
desesperadamente, como se Miguel pudesse surgir em qualquer canto. O coração
disparado fazia a dor da cirurgia piorar:
- Não… não… ele tava lá… - ela balançava a cabeça em negação. -
Ele olhou pra mim… ele chegou perto deles…
Micael se aproximou devagar da cama, suas mãos tremiam
discretamente.
- Sophia, olha pra mim… - ele segurou o rosto dela com cuidado. -
Ninguém vai encostar em você ou nos nossos filhos. Eu prometo.
Ela o encarou por alguns segundos e foi naquele momento que Sophia
percebeu algo estranho. Micael estava assustado, não era uma preocupação
normal, não era só tensão do parto, havia aflição nos olhos dele e ela
conseguia ver mesmo que ele quisesse esconder:
- Você viu ele também… - ela sussurrou sentindo as lágrimas caírem. - Não foi
coisa da minha cabeça, foi?
- Eu estava com você o tempo todo meu amor.... Não tinha ninguém
lá dentro. Eu juro - Micael apertou a mandíbula.
“Você tem uma família linda… seria uma pena alguma coisa
acontecer. Eu vou estar o tempo todo perto de vocês. ”
A ameaça ainda ecoava perfeitamente em sua mente. Ele sabia que
ela estava certa. Miguel era incontrolável, imprevisível, e estava com tudo
planejado caso Micael não cumprisse o acordo. Mas naquele momento ele precisava
esconder tudo de Sophia, por enquanto eles viveriam o momento, sem pensar no
futuro.
*****
O quarto voltou ao silêncio aos poucos. Sophia ainda chorava baixo
enquanto Lua ajeitava cuidadosamente o lençol sobre suas pernas. O efeito dos
remédios começava a deixá-la mais fraca outra vez, mas o medo continuava ali,
vivo dentro dela.
Micael não conseguia respirar direito pois a imagem de Miguel
parado no corredor da maternidade não saía da sua cabeça. As mãos nos bolsos do
jaleco, o sorriso discreto, o olhar fixo nos berços dos filhos.
- Eu quero ver eles… - Sophia murmurou cansada. - Por favor…
Lua olhou rapidamente para Micael antes de assentir.
- Eu vou chamar sua mãe.
Assim que Lua saiu do quarto, o silêncio ficou pesado entre os
dois. Sophia observou Micael por alguns segundos, ele evitava encará-la.
- Você tá me escondendo alguma coisa – ela suspirou
Micael acariciou seu rosto delicado e cansado.
-Meu amor, nós estamos vivendo o melhor momento de nossas vidas,
não fique buscando problemas onde não tem.
- Eu conheço você, Micael. Conheço cada olhar seu, o suficiente
pra saber que você me esconde algo, e isso não é apenas sobre hoje.
-Eu prefiro morrer a esconder algo de você - sorriu - Você tem um
espírito investigativo que não dá pra contestar. Inclusive, tenho dó de nossos
filhos quando eles precisarem esconder algo de você...- fez graça.
Aquilo bastou, Sophia
conseguiu rir e se distrair por um momento. E antes que pudesse se opor, a
porta do quarto se abriu. A enfermeira, juntamente com a mãe de Sophia, entrou
empurrando os três berços pequenos enquanto Lua vinha logo atrás sorrindo
emocionada.
E naquele instante, tudo parou. Sophia começou a chorar
imediatamente ao ver os filhos e Micael sentiu as pernas enfraquecerem, porque
ali, os observando dormindo tranquilamente, ele teve certeza absoluta de uma
coisa:
Miguel nunca deixaria aquela família em paz, e pela primeira vez
na vida, Micael sentiu medo, porque agora não era apenas sobre ele. Tudo o que
ele mais amava estava naquela sala, e isso o assustava.
Se for um sonho não me acorde
ResponderExcluirÉ muito real, pode comemorar... Eu acho que to voltando ahhaha
ExcluirEu não acredito que vc voltou 🥹
ResponderExcluirEu fiquei muito pensativa depois que tudo aconteceu, me deu tristeza, saudade, nostalgia, e voltei ao meu refúgio pra me sentir feliz,.
ExcluirEu tbm fiquei, tanto que voltei a assistir pra acalentar um pouco
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