Sophia Narrando
Se alguém tivesse me contado há alguns anos que um dia eu estaria
deitada em uma cama de hospital, casada com Micael Borges e mãe de três
crianças, provavelmente teria chamado essa pessoa de louca. Mas ali estava eu,
tentando me acostumar com a ideia de que aqueles três pequenos seres, que
dormiam tranquilamente nos bercinhos ao lado da cama, eram meus filhos. Meus.
Quer dizer, nossos, porque, desde que nasceram, meu marido fazia questão de
lembrar que havia participado ativamente daquela produção.
— Amor, você está olhando pra eles há quase meia hora — Micael comentou,
se aproximando da cama.
— E você está contando o tempo que passo olhando para os meus filhos?
— Nossos filhos, princesa. Nossos.
— Ah, claro, desculpa. Esqueci que você fez um esforço enorme durante
esses nove meses.
— Fiz mesmo, você sabe quantas vezes tive que sair de madrugada pra
comprar comida porque uma certa pessoa inventava desejos absurdos?
— Eu estava grávida.
— De três. Você usou essa desculpa por nove meses.
— E pretendo usar por mais uns seis, pelo menos.
— Pode usar pelo resto da vida, meu amor - ele gargalhou, se inclinando
para beijar minha testa.
— Eu te amo, sabia? - Sorri, puxando-o delicadamente pela camisa para
lhe dar um beijo.
— Desconfio, afinal, você teve três filhos comigo.
— Ainda estou tentando entender como isso aconteceu.
— Se quiser, podemos fazer uma demonstração prática quando chegarmos em
casa – se aproximou dos meus lábios, e eu pude sentir o suor descendo pelo
rosto, ele surtia um efeito inexplicável em mim.
— Micael... — bati de leve em seu braço, rindo.
— O quê? Estou apenas tentando ajudar sua memória.
— Você é um idiota sabia?
— Mas sou o seu idiota, que está morrendo de saudades da minha
branquinha – disse me beijando e me fazendo arfar.
-Eu to vendo que aguentar esse resguardo vai ser um suplício- disse
rindo.
Antes que ele pudesse responder, ouvimos algumas batidas na porta.
— Pode entrar — respondi.
A porta se abriu e, para minha surpresa, Chay apareceu carregando um
enorme urso de pelúcia, seguido por Mel, Arthur e Lua, que seguravam sacolas e
mais sacolas de presentes.
— CHEGOU A FAMÍLIA — Chay anunciou, abrindo os braços.
— Fala baixo, seu animal. — Micael respondeu imediatamente — Meus filhos
estão dormindo!
— Nossa, gente, nasceu o pai mais chato do Brasil - Chay parou no meio
do quarto e olhou para ele.
— Eu avisei — Lua respondeu, entrando logo atrás.
— Que saudade de vocês! — exclamei, sorrindo.
Mel se aproximou imediatamente, tomando cuidado para não me apertar
demais.
— Amiga, você está linda.
— Mentira, mas obrigada.
— É sério, nem parece que acabou de ter três crianças.
— Isso porque você ainda não viu minha barriga.
— Nem precisa mostrar — Chay interrompeu — A gente já viu a barriga do Micael,
deve estar parecida.
— Essa foi boa - Arthur disse gargalhando.
— Vocês vieram visitar meus filhos ou me encher o saco? - Micael cruzou
os braços.
— As duas coisas — Arthur respondeu, tranquilamente.
— Então podem ir embora.
— Amor! — reclamei, rindo.
— Princesa, olha o nível das pessoas que você deixou entrar aqui –
Micael dizia.
— O mesmo nível do pai das crianças — Lua respondeu.
— Lua, você está começando a me irritar.
— Começando? Achei que já tivesse conseguido há muitos anos.
Narrador
Os quatro amigos se aproximaram dos berços, observando os trigêmeos com
uma mistura de curiosidade e encantamento.
— Meu Deus, gente... Eles são tão pequenininhos - Mel levou as mãos à
boca assim que viu os bebês.
— E lindos — Lua completou — Principalmente as meninas.
— Como assim, principalmente as meninas? — Arthur perguntou — O menino
também é lindo.
— Amor, eu disse principalmente, não exclusivamente – Lua explicava.
— Já começou a preferência — Chay comentou — Coitado do garoto.
— Preferência nenhuma, aqui todo mundo é amado igualmente - Micael se
aproximou imediatamente.
— Olha só — Arthur apontou para ele — O discurso de pai responsável já
começou.
— Espera até elas crescerem — Chay respondeu — Quero ver esse discurso
quando aparecer o primeiro namorado.
— Que namorado? - Micael parou de sorrir.
— Ué, os namorados das suas filhas - Chay arregalou os olhos, fingindo
surpresa.
— Minhas filhas não vão namorar – ele disse e o quarto inteiro caiu na
gargalhada.
— Micael! — Sophia exclamou — Elas acabaram de nascer...
— Exatamente, são muito novas para pensar nessas coisas.
— Mas um dia vão crescer, cara — Arthur respondeu — Imagina duas meninas
lindas, iguais à mãe, chegando em casa com dois rapazes...
— Arthur, eu vou te pedir educadamente para calar a boca.
— E se os rapazes forem iguais a você? — Chay perguntou, segurando o
riso.
— Aí que não vão namorar mesmo.
— Ai, gente, parem, eu não posso rir muito - Sophia respondia
— Está vendo? Vocês estão fazendo minha mulher passar mal -Micael
imediatamente se aproximou dela.
— A gente? — Mel perguntou, indignada — Você que está surtando por causa
de dois namorados imaginários.
— Mel, você não entende, eu conheço os homens.
— Principalmente porque você era um deles, né? — Lua respondeu.
— Era? — Chay perguntou — Depois que virou pai, mudou de espécie?
Arthur gargalhou tão alto que um dos bebês começou a se mexer no berço. Micael
colocou o dedo diante dos lábios.
— Psiu! Silêncio!
Todos ficaram quietos por alguns segundos, observando a pequena menina
se espreguiçar delicadamente antes de voltar a dormir.
— Olha só... — Mel sussurrou, emocionada — Que coisa mais linda.
— Caramba, Mica. Você realmente é pai - Chay se aproximou do berço.
— Não, Chay. Eu aluguei três crianças para impressionar vocês.
— Continua grosso — Arthur comentou.
— E vocês continuam insuportáveis.
Sophia Narrando
Eu estava completamente apaixonada por aquele momento. Ver nossos amigos
reunidos, fazendo brincadeiras e disputando quem seria o padrinho favorito dos
nossos filhos, era algo que eu havia imaginado durante toda a gravidez. Mel
segurava uma das meninas nos braços, enquanto Chay observava atentamente cada
movimento.
— Amor, olha o tamanhinho da mão dela — Mel comentou.
— Parece uma bonequinha — ele respondeu, sorrindo.
— Você leva jeito com criança, sabia?
— Mel, não começa - Chay olhou desconfiado para a namorada.
— Não começa o quê?
— Essa sua cara - Chay
— Que cara?
— Essa cara de quem está imaginando um desses lá em casa.
— E seria tão ruim assim? - Ela começou a rir.
— Ruim? Claro que não. Só acho que podemos começar com um, não precisa
copiar os exageros do Micael.
— Ei! — meu marido protestou — Qual é o problema de ter três filhos?
— Nenhum, desde que você tenha uma fábrica de fraldas — Arthur
respondeu.
— Aliás — Lua interrompeu — Eu queria saber como vocês vão fazer quando
os três resolverem chorar ao mesmo tempo.
— Muito simples. Um fica comigo, outro com Sophia e o terceiro com vocês
- Micael abriu um sorriso imediatamente.
— Vocês quem? - Arthur franziu a testa.
— Não, senhor — Chay respondeu — Eu vim conhecer as crianças, não fazer
estágio de babá.
— Amigo, amizade é justamente isso, compartilhar os momentos difíceis.
— Engraçado, porque na hora de fazer você não compartilhou com ninguém —
Arthur comentou.
O quarto inteiro explodiu em gargalhadas.
— ARTHUR! — Lua gritou, batendo no braço do namorado.
— Finalmente alguém reconhece meus esforços - Micael abriu os braços.
— Micael Borges! — reclamei.
— O que foi, princesa? Estou apenas defendendo minha participação nessa
família.
— Você não presta.
— Mas você gosta.
— Infelizmente - Sorri, balançando a cabeça.
— Infelizmente nada. Você é louca por mim - Ele se aproximou e me deu um
beijo rápido.
— Convencido.
— Realista, meu amor.
Depois de
alguns minutos, Arthur finalmente conseguiu pegar o menino no colo.
— Olha só, parceiro... — falou baixinho, observando o bebê — Eu sou o tio Arthur. Quando você crescer, vou te ensinar um monte de coisa.
— Que tipo de coisa? - Micael levantou a cabeça imediatamente.
— Futebol, videogame, essas coisas.
— Ah, bom.
— E como conquistar as meninas...
— ARTHUR!
— Cara, você precisa relaxar! — Chay respondeu — O menino nem abriu os
olhos direito!
— Eu conheço vocês. Não quero meus filhos aprendendo besteira.
— Então vai precisar se afastar deles também — Lua comentou.
— Muito engraçada.
— Amiga, eu estou imaginando daqui a alguns anos. As duas meninas
correndo pela casa e o menino tentando fugir das irmãs - Mel se sentou ainda
segurando uma das pequenas.
— Isso se o Micael deixar as meninas saírem do quarto — Chay respondeu.
— Vão sair, sim — Micael garantiu — Para estudar, trabalhar e visitar os
avós.
— E namorar? — Arthur provocou.
— Arthur, eu já não falei pra você esquecer esse assunto?
— Tá bom, tá bom. Só espero que elas não puxem a Sophia.
— Como assim? - Meu marido imediatamente mudou a expressão.
— Ué, se puxarem a mãe, vão ter um monte de pretendentes atrás delas.
— Não vão, não.
— Amor... — tentei interromper.
— Vou colocar as duas numa escola só de meninas.
— MICAEL! — exclamei, rindo.
— O quê? Estou pensando no futuro!
— E o nosso filho? — perguntei — Pode namorar?
— Claro que pode - Ele sorriu.
— Ah, então é assim? - Cruzei os braços.
— Ih, rapaz. Agora você arrumou problema - Chay apontou imediatamente.
— Micael Borges, você vai criar nossos filhos com os mesmos direitos.
— Claro, princesa. Os três terão o direito de morar comigo até os
quarenta anos.
— Meu Deus, eu estou com pena dessas crianças - Lua começou a gargalhar.
Depois de tantas brincadeiras, os bebês começaram a ficar inquietos e a
enfermeira entrou para verificar se estava tudo bem. Enquanto Mel e Lua
conversavam sobre roupinhas, Chay se aproximou da cama.
— E aí, mamãe? Como está se sentindo?
— Cansada, mas muito feliz.
— Dá pra perceber.
— Ele está insuportável, né?
— Mais do que o normal - Chay riu.
— Eu não esperava menos dele
Micael sorria enquanto Arthur fazia alguma brincadeira com nosso filho. Por
alguns segundos, parecia completamente despreocupado, era tão bom vê-lo assim.
— Vocês vão continuar vindo visitar a gente, né? — perguntei.
— Claro, Soph. Agora você vai precisar de ajuda para cuidar dessa creche
que abriu.
— Idiota!
— Falando sério, estamos aqui para o que precisarem.
— Eu sei. Obrigada - Sorri emocionada.
Foi nesse momento que Micael se aproximou, passando o braço pelos ombros
de Chay.
— Inclusive, já que você está oferecendo ajuda...
— Não gostei dessa conversa - Chay imediatamente se afastou.
— Calma, amigo, é algo simples.
— Quando você fala que é simples, nunca é.
— Estive pensando... - Micael se sentou na beirada da minha cama.
— Lá vem — Lua comentou do outro lado do quarto.
— Que, depois que Sophia estiver completamente recuperada, nós dois
merecemos uma viagem.
— Uma viagem? - Arregalei os olhos.
— Claro, princesa. Só nós dois, um lugar bonito, romântico, sem ninguém
interrompendo nossos beijos a cada cinco minutos.
— E as crianças? — perguntei.
— Ficam com os tios! - Ele abriu um sorriso enorme.
O silêncio durou aproximadamente dois segundos.
— NÃO — Chay e Arthur responderam ao mesmo tempo.
— Eu topo - Mel começou a gargalhar.
— EU TAMBÉM — Lua respondeu imediatamente.
— Você nem me perguntou... - Arthur virou o rosto para a namorada.
— Amor, são nossos sobrinhos.
— São três, Lua. TRÊS.
— E daí?
— E daí que eu mal consigo cuidar de mim mesmo!
— Não, não, não. Micael, você não vai viajar e deixar três crianças
comigo - Chay balançava a cabeça negativamente.
— Mas você acabou de dizer que está aqui para o que precisarmos.
— Eu estava sendo educado.
— Agora já era, palavra dada é palavra cumprida.
— Amiga, imagina, nós quatro cuidando dos bebês- Mel segurou a mão de
Lua, animada.
— A gente precisa impedir essas duas - Arthur encarou Chay.
— Urgentemente.
— Fechado então, as meninas ficam responsáveis pelas crianças e vocês
dois pelas fraldas - Micael começou a gargalhar.
— Eu vou embora — Chay anunciou.
— Eu também — Arthur completou.
— Podem ir, mas deixem os presentes — meu marido respondeu.
— Amor, eu acabei de ter nossos filhos e você já está pensando em
viajar? - ele se aproximou do meu rosto.
— Princesa, eu te amo, mas pretendo continuar sendo seu namorado, seu
marido e seu eterno apaixonado, não apenas o pai dessas três coisinhas lindas -
Sorri.
— Você é impossível.
— E você ainda vai agradecer por ter um marido tão dedicado.
— Dedicado a quê? — Lua perguntou.
— À manutenção do nosso casamento - Micael abriu um sorriso malicioso.
— MICAEL — exclamei, completamente vermelha.
— Não acredito! O cara acabou de ter três filhos e já está planejando o
quarto- Chay se jogou no sofá, gargalhando.
— Socorro, já está ótimo. — Respondi imediatamente.
— Nossa, princesa. Assim você magoa seu marido - Micael fingiu
indignação.
— Meu amor, primeiro vamos aprender a trocar três fraldas ao mesmo
tempo, depois conversamos sobre qualquer outra coisa.
— Então ainda existe possibilidade?
— Sai daquiii- Peguei uma
almofada e joguei na direção dele.
Todos riram, e naquele momento percebi que a nossa vida havia mudado
completamente, mas algumas coisas continuavam exatamente iguais, nossos amigos
ainda eram completamente malucos. Meu marido continuava sendo o homem mais
insuportável e apaixonante do mundo.E eu não trocaria aquela bagunça por
absolutamente nada.
***
Micael Narrando
A visita terminou no começo da noite. Chay e Arthur saíram reclamando
que jamais aceitariam ficar sozinhos com os trigêmeos, enquanto Mel e Lua já
planejavam uma futura tarde de compras para os bebês. Sophia estava sorrindo
quando finalmente ficamos sozinhos.
— Gostou da visita, princesa?
— Amei. Estava com tanta saudade dessa bagunça.
— Eu também.
— Vem cá - Ela estendeu a mão pra mim.
— O que foi meu amor? - Aproximei-me e me sentei ao seu lado.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por tudo, pela nossa família, pelos nossos amigos, por estar aqui
comigo.
— Eu que tenho que agradecer, princesa - Sorri e beijei sua mão.
— Você está tão sentimental ultimamente...
— Culpa sua, me deu três filhos de uma vez só, agora vou passar o resto
da vida emocionado.
— Bobo - Ela gargalhou.
— Eu amo você, Sophia - Acariciei seu rosto delicadamente.
— Também te amo, meu pretinho.
Inclinei-me para beijá-la, sentindo aquele perfume que eu conhecia tão
bem. Por alguns segundos, esqueci completamente o mundo, esqueci Miguel, as
ameaças, o acordo e tudo aquilo que estava acontecendo fora daquele quarto. Ali
éramos apenas nós dois, como sempre deveria ter sido. Sophia encostou a testa
na minha.
— Amor?
— Oi, princesa.
— Você acha que vamos continuar assim quando nossos filhos crescerem?
— Assim como?
— Apaixonados, bobos, rodeados de amigos... Felizes.
— Eu espero que sim, meu amor - sorri, acariciando seus cabelos.
— Eu tenho certeza - Ela me deu mais um beijo antes de se acomodar cuidadosamente na cama, observei seu rosto por alguns segundos. Sophia tinha
tanta certeza do nosso futuro, e eu queria desesperadamente poder compartilhar
daquela certeza, mas preferi sorrir, porque, naquele dia, eu não queria pensar
em despedidas. Queria apenas ser o marido de Sophia, o pai dos nossos filhos, e
o homem mais feliz do mundo, mesmo que o tempo estivesse acabando.
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