sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CAP. 243—— 2 TEMPORADA - PONTO FRACO: TUDO PODE MUDAR DO DIA PRA NOITE

 

            Sophia Narrando


            Nunca imaginei que sair de um hospital pudesse ser tão complicado, na verdade, nunca imaginei que três pessoas tão pequenas fossem capazes de produzir tanta bagunça em tão pouco tempo. Eram bolsas, mantas, fraldas, roupinhas, documentos e uma infinidade de coisas que minha mãe insistia em conferir a cada cinco minutos. E, no meio daquela confusão, estava meu marido, que parecia ter assumido oficialmente o cargo de segurança particular dos nossos filhos.

— Micael, pelo amor de Deus, você já conferiu essa cadeirinha umas quinze vezes.

— Dezesseis — ele respondeu, sem levantar os olhos — E vou conferir quantas vezes forem necessárias.

— Amor, quem instalou foi o motorista, que inclusive sabe fazer isso.

— E quem garante que ele fez direito?

— O fato de que ele trabalha com isso há anos, talvez?

— Sophia, não começa.

— Eu? — perguntei indignada — Você está praticamente desmontando o carro!

— Eu sempre soube que você seria um pai insuportável, Micael, mas confesso que superou minhas expectativas – Lua disse rindo, enquanto via aquela situação.

— Obrigado, Lua, sua opinião é sempre muito importante- Micael respondeu.

— Não parece.

— Porque não é.

— Grosso – Lua respondeu fazendo graça

— Intrometida.

— Crianças! — minha mãe interrompeu — Será que podemos ir embora antes que esses bebês completem um ano de idade aqui?

- Eu não aguento vocês – respondi rindo e senti um leve desconforto– Ai...

— O que aconteceu amor? Quer que eu chame o médico? - Micael imediatamente abandonou o que estava fazendo.

— Estou bem, amor, só ri demais.

— Então tenta não rir.

— Você quer que eu pare de rir? - Encarei meu marido por alguns segundos.

— Até melhorar, seria interessante.

— Lua, leva esse homem embora – disse pegando seu braço

— Infelizmente agora ele é responsabilidade sua, amiga. Você casou – Lua debochava

— E não aceito devolução — Micael completou, beijando minha testa- revirei os olhos, mas não consegui evitar o sorriso. Meu marido era completamente maluco, e eu o amava exatamente assim.

                                                                ***

            Narrador

            O caminho até em casa foi tranquilo. Sophia permaneceu durante quase todo o trajeto observando os filhos, encantada com cada movimento que faziam. Micael, por sua vez, não conseguia deixar de olhar para os quatro. Era estranho como a felicidade podia ser tão bonita e, ao mesmo tempo, tão dolorosa. Ele havia imaginado aquele momento inúmeras vezes: a chegada dos filhos, a primeira noite em casa, o quarto preparado com tanto cuidado, Sophia acordando durante a madrugada e reclamando que ele não conseguia colocar as fraldas corretamente. Tudo aquilo finalmente estava acontecendo, mas agora ele precisava lutar contra a vontade de contar a verdade. Queria abraçar Sophia e dizer que estava com medo, queria pedir que ela o perdoasse por aquilo que estava prestes a fazer, queria garantir que encontraria uma maneira de vencer Miguel. Entretanto, cada vez que fechava os olhos, lembrava-se da ligação.

"Hoje sua esposa acordou daquela cama de hospital. Seria uma pena se, numa próxima vez, isso não acontecesse."

Aquela frase era suficiente para destruir qualquer esperança de enfrentar o homem diretamente.

— Amor? — Sophia chamou, interrompendo seus pensamentos.

— Oi, princesa.

— Você está tão quietinho...

— Estou apreciando a paisagem.

— Que paisagem? — ela olhou pela janela — Estamos passando por um posto de gasolina.

— Estava falando de você, sua boba - Micael riu.

— Ah, claro... boa tentativa de fugir da pergunta.

— Só estou pensando em como sou sortudo - Ele segurou sua mão.

 — Por ter uma esposa maravilhosa?

— Também.

— Também? — perguntou indignada.

— E por ter três filhos que, graças a Deus, ainda não aprenderam a reclamar tanto quanto a mãe.

— Micael... - Ele gargalhou e beijou sua mão. Por alguns segundos, esqueceu tudo, e foi justamente isso que mais o assustou, a facilidade com que Sophia conseguia fazê-lo esquecer o mundo.

                                                                ***

            Sophia Narrando

            Quando o carro finalmente estacionou em frente à nossa casa, percebi que havia alguma coisa diferente. A entrada estava decorada com flores brancas e pequenos balões, uma faixa delicada anunciava a chegada dos nossos bebês.

— Micael...- Levei as mãos à boca.

— Gostou?

— Meu Deus, amor...

— Calma, ainda nem entrou.

— O que você aprontou? - Olhei para ele, surpresa.

— Eu? Absolutamente nada.

— Micael Borges, eu conheço essa sua cara.

— Então deveria conhecer também a minha capacidade de surpreender minha esposa.

Lua apareceu ao lado do carro.

— Vocês pretendem passar o resto do dia namorando aí dentro ou podemos conhecer a decoração?

— Lua... — reclamei.

— O quê? Estou com fome!

— Essa mulher só pensa em comer - Micael gargalhou.

— E você só pensa em beijar minha amiga, cada um com suas prioridades.

            Entramos em casa entre risadas, a sala estava linda, havia flores espalhadas pelos móveis, fotografias nossas durante a gravidez e pequenos detalhes preparados especialmente para aquele momento. Mas foi quando olhei para a parede principal que perdi completamente o controle das lágrimas, pois uma fotografia enorme mostrava Micael ajoelhado diante de mim, beijando minha barriga. Abaixo dela, uma frase: "O amor que um dia coube em dois corações, agora transborda em cinco."

— Você fez tudo isso? — perguntei, chorando.

— Eu queria que você nunca esquecesse esse dia - Ele se aproximou lentamente.

— Como eu poderia esquecer, meu amor?

— Promete que vai guardar todas as nossas lembranças? - Micael segurou meu rosto delicadamente.

— Que pergunta estranha...- Franzi a testa.

— É que agora teremos tantas histórias para contar aos nossos filhos.

— Vamos ter uma vida inteira para isso - Sorri.

— Uma vida inteira... — repetiu baixinho.

— Amor?

— Nada, princesa. Vem cá.

Ele me abraçou cuidadosamente, e eu me senti exatamente onde deveria estar. Em casa, nos braços do homem da minha vida.

                                                                 ***

            Micael Narrando

            Já era noite quando finalmente consegui ficar sozinho com Sophia. Os bebês estavam dormindo, minha sogra estava no quarto dormindo e Lua, depois de muito reclamar, decidiu ir embora. Sophia estava deitada, observando algumas fotografias que havíamos tirado naquele dia.

— Amor, olha essa aqui! — ela disse, mostrando a tela do celular — Você está com uma cara horrível.

— Eu estava tentando segurar três crianças ao mesmo tempo. Queria que eu estivesse como? - Aproximei-me para olhar.

— Bonito, pelo menos.

— Impossível, sou bonito até fazendo careta.

— Convencido - Ela gargalhou.

— Está sentindo dor? - Deitei ao seu lado, tomando cuidado para não machucá-la.

— Um pouquinho, mas estou bem.

— Quer alguma coisa?

— Quero.

— O quê?

— Meu marido.

— Ele está aqui - Sorri.

— Não....quero ele bem pertinho de mim.

Aproximei meu rosto do seu e a beijei delicadamente. Sophia passou a mão pelos meus cabelos.

— Eu estava com tanta saudade disso...

— De me beijar? – disse brincando

— De ter você só pra mim por alguns minutos.

— Agora vai precisar aprender a dividir.

— Eu sei — sorriu — Mas ainda sou a mulher da sua vida, não sou?

— Você sempre vai ser a mulher da minha vida, Sophia - Segurei seu rosto entre minhas mãos.

— Promete? - Ela sorriu e me beijou novamente.

— Prometo.

— Mesmo quando eu estiver velha, chata e enrugada?

— Principalmente quando estiver velha, chata e enrugada.

— Idiota.

— Minha idiota favorita - Ela riu e se aconchegou em meu peito.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu acariciava seus cabelos enquanto ela desenhava pequenos círculos sobre minha camisa.

— Micael?

— Oi, meu amor.

— Você está feliz?

— Sou o homem mais feliz do mundo- Fechei os olhos por alguns segundos.

— Então por que às vezes parece tão triste?

— Deve ser cansaço, princesa - Meu coração apertou.

— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? - Sophia levantou o rosto.

— Sei.

— Então nunca esquece disso.

— Eu não vou esquecer- Beijei sua testa.

            Ela voltou a se acomodar em meus braços e, pouco tempo depois, sua respiração ficou tranquila. Acariciei seus cabelos delicadamente, observando aquele rostinho que eu conhecia tão bem. Era impressionante como Sophia conseguia me deixar completamente apaixonado mesmo depois de tantos anos. Na verdade, acho que me apaixonava um pouco mais por ela a cada dia.

— Eu te amo, sua branquinha... — sussurrei, beijando sua testa.

— Também te amo, meu pretinho... — respondeu sonolenta.

— Pensei que estivesse dormindo - Sorri, surpreso.

— Estou tentando, mas tem um homem muito chato falando no meu ouvido.

— Nossa, princesa. Que maneira cruel de tratar o pai dos seus filhos.

— Shhh... — ela colocou o dedo sobre meus lábios — Amanhã você reclama.

— E se eu quiser um beijo de boa-noite?

— Micael, você já me beijou umas cinquenta vezes hoje - Sophia abriu os olhos lentamente, me encarando com aquela expressão de quem estava prestes a perder a paciência.

— Cinquenta e uma não faria mal a ninguém.

— Você não tem jeito mesmo - Ela gargalhou baixinho, tomando cuidado para não sentir dor.

— Tenho, mas você não quer me consertar.

— Não quero mesmo — respondeu, puxando meu rosto para perto do seu — Gosto de você assim, insuportável.

— Boa noite, meu amor - Beijei seus lábios delicadamente e ela voltou a se aconchegar em meu peito.

— Boa noite, princesa.

            Alguns minutos depois, ouvi um chorinho vindo do quarto ao lado. Olhei para Sophia, que finalmente havia conseguido adormecer, e balancei a cabeça, sorrindo.

— Já começou a festa... — murmurei. Levantei cuidadosamente para não acordá-la e caminhei até o quarto dos bebês. Uma das meninas estava acordada, mexendo os bracinhos enquanto reclamava baixinho.

— O que foi, minha princesa? — perguntei, aproximando-me do berço — Já está com saudade do papai? - Peguei-a delicadamente no colo e comecei a caminhar pelo quarto.

— Olha, nós precisamos fazer um acordo, mocinha. Você e seus irmãos precisam aprender a dormir durante a noite, porque o papai também precisa de um tempinho com a mamãe, entendeu?

            Ela continuou resmungando.

— Ah, não concorda? Pois fique sabendo que conheci sua mãe muito antes de você chegar, então tenho alguns direitos adquiridos nessa casa- A pequena abriu a boca, fazendo uma careta engraçada— Não adianta reclamar, princesa. Você é linda, mas sua mãe continua sendo minha namorada.

            Sorri, beijando sua testa. Depois de alguns minutos, ela finalmente adormeceu em meus braços. Acomodei-a cuidadosamente no berço e fiquei observando os três por alguns instantes. Era engraçado pensar que, até poucos dias atrás, aquela casa era completamente silenciosa durante a madrugada. Agora, bastava um deles se mexer para que todo o meu mundo parasse.

Eu estava adorando aquilo. Apaguei a luz e voltei para o quarto, encontrando Sophia completamente espalhada sobre a cama, abraçada ao meu travesseiro.

— Até dormindo você consegue roubar minhas coisas, né, princesa? — murmurei, sorrindo.

            Deitei ao seu lado, puxando-a delicadamente para perto de mim. Ela se acomodou automaticamente em meus braços, como sempre fazia. Naquele momento, não quis pensar em mais nada. Nem nos problemas, nem nas preocupações que me aguardavam. Eu queria apenas aproveitar aquela noite, aquela mulher e a família maravilhosa que havíamos construído, porque algumas coisas na vida são tão preciosas que merecem ser vividas intensamente, independentemente do que o amanhã nos reserve.




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