Sophia Narrando
Nunca imaginei que sair de um hospital pudesse ser tão complicado, na
verdade, nunca imaginei que três pessoas tão pequenas fossem capazes de
produzir tanta bagunça em tão pouco tempo. Eram bolsas, mantas, fraldas,
roupinhas, documentos e uma infinidade de coisas que minha mãe insistia em
conferir a cada cinco minutos. E, no meio daquela confusão, estava meu marido,
que parecia ter assumido oficialmente o cargo de segurança particular dos
nossos filhos.
— Micael, pelo amor de Deus, você já conferiu essa cadeirinha umas
quinze vezes.
— Dezesseis — ele respondeu, sem levantar os olhos — E vou conferir
quantas vezes forem necessárias.
— Amor, quem instalou foi o motorista, que inclusive sabe fazer isso.
— E quem garante que ele fez direito?
— O fato de que ele trabalha com isso há anos, talvez?
— Sophia, não começa.
— Eu? — perguntei indignada — Você está praticamente desmontando o
carro!
— Eu sempre soube que você seria um pai insuportável, Micael, mas
confesso que superou minhas expectativas – Lua disse rindo, enquanto via aquela
situação.
— Obrigado, Lua, sua opinião é sempre muito importante- Micael respondeu.
— Não parece.
— Porque não é.
— Grosso – Lua respondeu fazendo graça
— Intrometida.
— Crianças! — minha mãe interrompeu — Será que podemos ir embora antes
que esses bebês completem um ano de idade aqui?
- Eu não aguento vocês – respondi rindo e senti um leve desconforto– Ai...
— O que aconteceu amor? Quer que eu chame o médico? - Micael
imediatamente abandonou o que estava fazendo.
— Estou bem, amor, só ri demais.
— Então tenta não rir.
— Você quer que eu pare de rir? - Encarei meu marido por alguns
segundos.
— Até melhorar, seria interessante.
— Lua, leva esse homem embora – disse pegando seu braço
— Infelizmente agora ele é responsabilidade sua, amiga. Você casou – Lua
debochava
— E não aceito devolução — Micael completou, beijando minha testa- revirei
os olhos, mas não consegui evitar o sorriso. Meu marido era completamente
maluco, e eu o amava exatamente assim.
Narrador
O caminho até em casa foi tranquilo. Sophia permaneceu durante quase
todo o trajeto observando os filhos, encantada com cada movimento que faziam.
Micael, por sua vez, não conseguia deixar de olhar para os quatro. Era estranho
como a felicidade podia ser tão bonita e, ao mesmo tempo, tão dolorosa. Ele
havia imaginado aquele momento inúmeras vezes: a chegada dos filhos, a primeira
noite em casa, o quarto preparado com tanto cuidado, Sophia acordando durante a
madrugada e reclamando que ele não conseguia colocar as fraldas corretamente. Tudo
aquilo finalmente estava acontecendo, mas agora ele precisava lutar contra a
vontade de contar a verdade. Queria abraçar Sophia e dizer que estava com medo,
queria pedir que ela o perdoasse por aquilo que estava prestes a fazer, queria
garantir que encontraria uma maneira de vencer Miguel. Entretanto, cada vez que
fechava os olhos, lembrava-se da ligação.
"Hoje sua esposa acordou daquela cama de hospital. Seria uma pena
se, numa próxima vez, isso não acontecesse."
Aquela frase era suficiente para destruir qualquer esperança de
enfrentar o homem diretamente.
— Amor? — Sophia chamou, interrompendo seus pensamentos.
— Oi, princesa.
— Você está tão quietinho...
— Estou apreciando a paisagem.
— Que paisagem? — ela olhou pela janela — Estamos passando por um posto
de gasolina.
— Estava falando de você, sua boba - Micael riu.
— Ah, claro... boa tentativa de fugir da pergunta.
— Só estou pensando em como sou sortudo - Ele segurou sua mão.
— Também.
— Também? — perguntou indignada.
— E por ter três filhos que, graças a Deus, ainda não aprenderam a
reclamar tanto quanto a mãe.
— Micael... - Ele gargalhou e beijou sua mão. Por alguns segundos,
esqueceu tudo, e foi justamente isso que mais o assustou, a facilidade com que
Sophia conseguia fazê-lo esquecer o mundo.
Sophia Narrando
Quando o carro finalmente estacionou em frente à nossa casa, percebi que
havia alguma coisa diferente. A entrada estava decorada com flores brancas e
pequenos balões, uma faixa delicada anunciava a chegada dos nossos bebês.
— Micael...- Levei as mãos à boca.
— Gostou?
— Meu Deus, amor...
— Calma, ainda nem entrou.
— O que você aprontou? - Olhei para ele, surpresa.
— Eu? Absolutamente nada.
— Micael Borges, eu conheço essa sua cara.
— Então deveria conhecer também a minha capacidade de surpreender minha
esposa.
Lua apareceu ao lado do carro.
— Vocês pretendem passar o resto do dia namorando aí dentro ou podemos
conhecer a decoração?
— Lua... — reclamei.
— O quê? Estou com fome!
— Essa mulher só pensa em comer - Micael gargalhou.
— E você só pensa em beijar minha amiga, cada um com suas prioridades.
Entramos em casa entre risadas, a sala estava linda, havia flores
espalhadas pelos móveis, fotografias nossas durante a gravidez e pequenos
detalhes preparados especialmente para aquele momento. Mas foi quando olhei
para a parede principal que perdi completamente o controle das lágrimas, pois uma
fotografia enorme mostrava Micael ajoelhado diante de mim, beijando minha
barriga. Abaixo dela, uma frase: "O amor que um dia coube em dois
corações, agora transborda em cinco."
— Você fez tudo isso? — perguntei, chorando.
— Eu queria que você nunca esquecesse esse dia - Ele se aproximou
lentamente.
— Como eu poderia esquecer, meu amor?
— Promete que vai guardar todas as nossas lembranças? - Micael segurou
meu rosto delicadamente.
— Que pergunta estranha...- Franzi a testa.
— É que agora teremos tantas histórias para contar aos nossos filhos.
— Vamos ter uma vida inteira para isso - Sorri.
— Uma vida inteira... — repetiu baixinho.
— Amor?
— Nada, princesa. Vem cá.
Ele me abraçou cuidadosamente, e eu me senti exatamente onde deveria
estar. Em casa, nos braços do homem da minha vida.
Micael
Narrando
Já era noite quando finalmente consegui ficar sozinho com Sophia. Os
bebês estavam dormindo, minha sogra estava no quarto dormindo e Lua, depois de
muito reclamar, decidiu ir embora. Sophia estava deitada, observando algumas
fotografias que havíamos tirado naquele dia.
— Amor, olha essa aqui! — ela disse, mostrando a tela do celular — Você
está com uma cara horrível.
— Eu estava tentando segurar três crianças ao mesmo tempo. Queria que eu
estivesse como? - Aproximei-me para olhar.
— Bonito, pelo menos.
— Impossível, sou bonito até fazendo careta.
— Convencido - Ela gargalhou.
— Está sentindo dor? - Deitei ao seu lado, tomando cuidado para não
machucá-la.
— Um pouquinho, mas estou bem.
— Quer alguma coisa?
— Quero.
— O quê?
— Meu marido.
— Ele está aqui - Sorri.
— Não....quero ele bem pertinho de mim.
Aproximei meu rosto do seu e a beijei delicadamente. Sophia passou a mão
pelos meus cabelos.
— Eu estava com tanta saudade disso...
— De me beijar? – disse brincando
— De ter você só pra mim por alguns minutos.
— Agora vai precisar aprender a dividir.
— Eu sei — sorriu — Mas ainda sou a mulher da sua vida, não sou?
— Você sempre vai ser a mulher da minha vida, Sophia - Segurei seu rosto
entre minhas mãos.
— Promete? - Ela sorriu e me beijou novamente.
— Prometo.
— Mesmo quando eu estiver velha, chata e enrugada?
— Principalmente quando estiver velha, chata e enrugada.
— Idiota.
— Minha idiota favorita - Ela riu e se aconchegou em meu peito.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu acariciava seus cabelos enquanto ela
desenhava pequenos círculos sobre minha camisa.
— Micael?
— Oi, meu amor.
— Você está feliz?
— Sou o homem mais feliz do mundo- Fechei os olhos por alguns segundos.
— Então por que às vezes parece tão triste?
— Deve ser cansaço, princesa - Meu coração apertou.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? - Sophia
levantou o rosto.
— Sei.
— Então nunca esquece disso.
— Eu não vou esquecer- Beijei sua testa.
Ela voltou a se acomodar em meus braços e, pouco
tempo depois, sua respiração ficou tranquila. Acariciei seus cabelos delicadamente,
observando aquele rostinho que eu conhecia tão bem. Era impressionante como
Sophia conseguia me deixar completamente apaixonado mesmo depois de tantos
anos. Na verdade, acho que me apaixonava um pouco mais por ela a cada dia.
— Eu te amo, sua branquinha... — sussurrei,
beijando sua testa.
— Também te amo, meu pretinho... — respondeu
sonolenta.
— Pensei que estivesse dormindo - Sorri, surpreso.
— Estou tentando, mas tem um homem muito chato
falando no meu ouvido.
— Nossa, princesa. Que maneira cruel de tratar o
pai dos seus filhos.
— Shhh... — ela colocou o dedo sobre meus lábios —
Amanhã você reclama.
— E se eu quiser um beijo de boa-noite?
— Micael, você já me beijou umas cinquenta vezes
hoje - Sophia abriu os olhos lentamente, me encarando com aquela expressão de
quem estava prestes a perder a paciência.
— Cinquenta e uma não faria mal a ninguém.
— Você não tem jeito mesmo - Ela gargalhou
baixinho, tomando cuidado para não sentir dor.
— Tenho, mas você não quer me consertar.
— Não quero mesmo — respondeu, puxando meu rosto
para perto do seu — Gosto de você assim, insuportável.
— Boa noite, meu amor - Beijei seus lábios
delicadamente e ela voltou a se aconchegar em meu peito.
— Boa noite, princesa.
Alguns minutos depois, ouvi um chorinho vindo do
quarto ao lado. Olhei para Sophia, que finalmente havia conseguido adormecer, e
balancei a cabeça, sorrindo.
— Já começou a festa... — murmurei. Levantei
cuidadosamente para não acordá-la e caminhei até o quarto dos bebês. Uma das
meninas estava acordada, mexendo os bracinhos enquanto reclamava baixinho.
— O que foi, minha princesa? — perguntei,
aproximando-me do berço — Já está com saudade do papai? - Peguei-a
delicadamente no colo e comecei a caminhar pelo quarto.
— Olha, nós precisamos fazer um acordo, mocinha.
Você e seus irmãos precisam aprender a dormir durante a noite, porque o papai
também precisa de um tempinho com a mamãe, entendeu?
Ela continuou resmungando.
— Ah, não concorda? Pois fique sabendo que conheci sua mãe muito antes de você chegar, então tenho alguns direitos adquiridos nessa casa- A pequena abriu a boca, fazendo uma careta engraçada— Não adianta reclamar, princesa. Você é linda, mas sua mãe continua sendo minha namorada.
Sorri, beijando sua testa. Depois de alguns
minutos, ela finalmente adormeceu em meus braços. Acomodei-a cuidadosamente no
berço e fiquei observando os três por alguns instantes. Era engraçado pensar
que, até poucos dias atrás, aquela casa era completamente silenciosa durante a
madrugada. Agora, bastava um deles se mexer para que todo o meu mundo parasse.
Eu estava adorando aquilo. Apaguei a luz e voltei
para o quarto, encontrando Sophia completamente espalhada sobre a cama,
abraçada ao meu travesseiro.
— Até dormindo você consegue roubar minhas coisas,
né, princesa? — murmurei, sorrindo.
Deitei ao seu lado, puxando-a delicadamente para
perto de mim. Ela se acomodou automaticamente em meus braços, como sempre
fazia. Naquele momento, não quis pensar em mais nada. Nem nos problemas, nem
nas preocupações que me aguardavam. Eu queria apenas aproveitar aquela noite,
aquela mulher e a família maravilhosa que havíamos construído, porque algumas
coisas na vida são tão preciosas que merecem ser vividas intensamente,
independentemente do que o amanhã nos reserve.
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